quarta-feira, abril 20, 2011

SINCERA

SAUDADE

Magoa-me a saudade

do sobressalto dos corpos

...ferindo-se de ternura

dói-me a distante lembrança

do teu vestido

caindo aos nossos pés



Magoa-me a saudade

do tempo em que te habitava

como o sal ocupa o mar

como a luz recolhendo-se

nas pupilas desatentas



Seja eu de novo tua sombra, teu desejo,

tua noite sem remédio

tua virtude, tua carência

eu

que longe de ti sou fraco

eu

que já fui águia, seiva vegetal

sou agora gota trémula, raiz exposta



Traz

de novo, meu amor,

a transparência da água

dá ocupação à minha ternura vadia

mergulha os teus dedos

no feitiço do meu peito

e espanta na gruta funda de mim

os animais que atormentam o meu sono.



MIA COUTO


Raiz de Orvalho e Outros Poemas
 
O meu comentário???
Sossega o meu vento,
escreve-me no rasto do meu dia...
Silencia as minhas palavras com o teu beijo...
Volta a sorrir como dantes....
Na paixão sincera do meu corpo....
Porque todo o meu Mundo entrou em colapso....
Preciso da tua mão para entrar novamente....
No que resta da minha vida....

segunda-feira, abril 18, 2011

LIMITES

Identidade

Preciso ser um outro

para ser eu mesmo



Sou grão de rocha

Sou o vento que a desgasta



Sou pólen sem insecto



Sou areia sustentando

o sexo das árvores



Existo onde me desconheço

aguardando pelo meu passado

ansiando a esperança do futuro



No mundo que combato morro

no mundo por que luto nasço



Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

O meu comentário???
Porque me encontro,
reinvento-me
em estradas não assinaladas....
A verdade para além da verdade...
Num passado sem glória,
num futuro com sucesso...
Perco-me nos labirintos da vida,
cruzo-me com quem já perdeu tudo
e cansou-se da vida...
Não estou cansado..
Não quero desistir...
Ainda não sei quais são
os meus limites.....
 

sexta-feira, abril 15, 2011

PÃO

vais ver
há-de romper uma noite
em que nem seremos capazes
de reconhecer a nossa própria voz
perguntando pelo nome
que fugiu da nossa boca

e ao estendermos as mãos
sobre a toalha da mesa do jantar
será apenas o cheiro do pão quente
a ficar  remotamente  entre os dedos
e uma jarra sem flores a tentar decifrar
a ausência de quem nos amava

e um choro a abandonar-nos naquele momento
em que o fim do verão nos explicava tudo.

de Alice Vieira

O meu comentário???
O "tudo" que passou a ser "nada"...
Um "nada" sem voz,
um "nada" ausente...
O fim do verão é o fim da distância...
Esse distância que não se explica....
Porque já se amou
e não se volta a amar assim...
Aquela será a última conversa...
Naquela mesa, com aquela toalha
que ficará esquecida,
na gaveta,
rejeitada,
culpada por ter ainda o cheiro do pão entranhado...

quinta-feira, abril 14, 2011

MAPA DO TESOURO

Uma declaração de amor não é acontecimento
de domínio público, uma baleia que vara na praia
sob o sol dos desastres e convoca multidões,
desalinhando hábitos quotidianos: uma declara-
ção de amor é um acto de grande intimidade que
ergue um véu transparente de onde brotam mel e
pássaros azuis. As palavras directas ou indirectas,
ditas ou escritas, suscitam a carícia única, irrepe-
tível, a leve percussão que desenha no silêncio a
imagem de quem se ama. E assim terá de se guardar.
Num lugar seguro onde os sismos não possam
encontrar o mapa de tesouro

de Egito Gonçalves

O meu comentário???
O meu lugar seguro é o meu coração...
Onde escrevo tudo...
As palavras que já te disse,
as que pensei dizer-te hoje...
E as que não vou repetir amanhã,
porque fiquei em silêncio...
Com o beijo carinhoso e suave
com que fechaste o meu dia...
A noite pode ser azul e doce....
Mas ignoramos tudo.....
Mesmo o mapa do tesouro....
Sabemos perfeitamente onde estamos...


segunda-feira, abril 11, 2011

PERFUME DA NOITE

As formas, as sombras, a luz que descobre a noite
e um pequeno passáro

e depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos numa plantação de sargaços

a tua figura era ao que me lembro
da cor do jardim.

"Z" de António Maria Lisboa

O meu comentário???
Porque insistes em falar em solidão???
Se a noite se cala e nada mais há a dizer...
Esquecer????
Não é fácil, pois não???
Com tantas memórias escritas
em coisas tão simples...
Como o perfume da noite
ou árvore que floresce....
A vida parece mesmo vazia....
Mas estará realmente????

sexta-feira, abril 08, 2011

TUDO

Andas pela casa com passos leves,
pousas a mão no colo, sorris. E eu
acredito que o mundo te acompanha.
Como ecos do que fazes, formam-se
nuvens sobre o mar e cantam pássaros
em países distantes. Sei que é assim.
O teu olhar sustenta o céu imenso,
a luz dos astros, todas as galáxias.

"O teu olhar sustenta o céu imenso" de José Mário Silva

O meu comentário???
E eu refugio-me no teu olhar...
E não falo....
Deixo que seja o mundo a falar-te...
E no teu sorriso encontro as respostas a tudo...
Porque amo-te por completo....
Vivemos como um todo....
Por isso, tudo é imenso....
Tudo...
 é este amor em que nos sorrimos.....

quarta-feira, abril 06, 2011

NA LUZ

Eu ontem vi-te...

Andava a luz

Do teu olhar,

Que me seduz

A divagar

Em torno a mim.

E então pedi-te,

Não que me olhasses,

Mas que afastasses,

Um poucochinho,

Do meu caminho,

Um tal fulgor

De medo, amor,

Que me cegasse,

Me deslumbrasse

Fulgor assim.


de Ângelo de Lima

O meu comentário???
A verdade é que quero que me vejas....
Sente-me nesse desejo
escondido na luz...
A luz
em que os nossos corpos se entrelaçam...
Numa paixão
que nunca poderemos negar....
Revela-se em nós,
nesse olhar que nos preenche....
Com luz....

sábado, abril 02, 2011

PALAVRAS DE CONSOLO

Quando os teus olhos absorvem
todas as cores da minha
mais íntima tristeza,
e compreendes e calas e prometes
um lugar qualquer na tua alma
e a tua voz demora a regressar
ao neutro compromisso das palavras,
sei que as tuas mãos ajudariam
a limpar estas lágrimas antigas
por dentro do meu rosto

de Vitor Matos e Sá

O meu comentário???
Fala-se, sente-se amor....
Respeita-se o tempo e o espaço...
Mais importante que as palavras de consolo...
Nunca se esquece totalmente a dor....
Há momentos
em que essas lágrimas antigas
massacram a alma...
Se encontramos alguém que sabe que elas existem,
mas ignora-as....
Ama-nos, de todo o coração...

sexta-feira, abril 01, 2011

NA PELE

como dizer aos meus olhos que se afastem
do incêndio que lavra a oriente do teu sangue
rasgando a minha fome

e me protejam nesta imperfeita madrugada
em que as línguas dos homens e dos anjos
se confundem

de Alice Vieira,  in "Cinco Breves Momentos de Maio"

O meu comentário???
Como dizer, enfim que tudo acabou?
Como apagar o desejo,
a paixão que ainda vejo nos meus olhos??
Como te quero ainda....
Fico sem saber o que pensar....
Fico acordada, sem paz.....
Porque ainda te escuto....
Ainda repito baixinho
as tuas palavras de amor....
Ainda as sinto numa carícia na pele....

segunda-feira, março 28, 2011

LONGE DAQUI

Cai chuva do céu cinzento

Cai chuva do céu cinzento

Que não tem razão de ser.

Até o meu pensamento

Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza

Acrescentada à que sinto.

Quero dizer-ma mas pesa

O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente

Não sei se estou triste ou não,

E a chuva cai levemente

(Porque Verlaine consente)

Dentro do meu coração.


Fernando Pessoa


O meu comentário???
Chuva intensa que nos magoa....
Na alma,
no corpo....
Fria,
despreza as
horas em que
se cruzam destinos trágicos...
Em que a vida desaparece.....
Numa angústia,
num desespero total.....
Quando nada mais há a dizer...
E se deseja estar bem longe
daqui....

 



domingo, março 27, 2011

VOO DA GAIVOTA

ARIMA


Uma gaivota- dizes.

Sim, uma gaivota

passa distante, e arde.

o teu rosto é azul,

e contudo está cheio

de oiro da tarde.



Uma gaivota.

Alma do mar e tua,

abandona-se à luz.

E na boca nem eu sei

se me nasce o coração,

ou se é a lua.



de Eugénio de Andrade, enviado pela Tecas

O meu comentário???
Será a beleza, a liberdade???
Do sonho, da vida, dos momentos...
Esses momentos dourados,
porque são únicos...
Nascem e guardam-se no coração...
Tal como o voo da gaivota...
Suave riscando o azul do céu....
Escrevendo o que só os nossos olhos entendem...


sexta-feira, março 25, 2011

SEGREDOS DO VENTO

Tenho uma coisa para te entregar,
uma pedra a pôr no chão da rua,
uma lunar presença sob o sol.
Tenho uma coisa para devolver,
para ficar minha sendo tua,
aquecida no tempo e nestes olhos.
Tenho uma coisa que eu te posso dar
que é o vento a vir atrás do verde
e a dizer azul no teu cabelo

de Pedro Tamen

O meu comentário???
Mas se eu fugi com o vento....
Se eu conheço os segredos do vento....
Não há cores que eu não decifre....
Não me devolvas nada....
Deixa, sim que eu guarde o teu olhar.....
Para afugentar o tempo....
Pois, lembra-te, ele também me faz sofrer....

terça-feira, março 22, 2011

LETRA

Porque eu amo-te, quero dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra

"Com a tua Letra" de Fernando Assis Pacheco

O meu comentário???
E sabes qual é a minha Letra?
Essa letra com que iluminas o mundo...
Nada regular,
nada eterno,
surdo e mudo,
às vezes...
Mas não escuro,
enquanto se escrever amor
com a minha Letra...
Essa Letra com que te passeias na minha pele...
Exótica, vibrante...
Como o amor é....

domingo, março 20, 2011

EXTREMO

Tu já me arrumaste no armário dos restos
eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos
e das nossas memórias começamos a varrer
as pequenas gotas de felicidade
que já fomos.
Mas no tempo subjectivo
tu és ainda o meu relógio de vento
a minha máquina aceleradora de sangue
e por quanto tempo ainda
as minhas mãos serão para ti
o nocturno passeio do gato no telhado?

de Isabel Meyrelles in "100 poemas portugueses para SMS"

O meu comentário???
Não sei...
Não quero saber,
porque não sei o que custa mais...
Varrer-te da alma ou do corpo?
Ainda se acorda em sobressalto...
Ainda se pensa em como "está atrasado"
e pega-se no telefone....
Fica uma chamada não atendida...
Fica a frustração
e uma raiva surda....
Depois,
é escondermo-nos atrás de qualquer coisa....
Geralmente,
vou de um extremo ao outro...
Um tango "caliente"
ou Debussy, "Clair de Lune"....

quarta-feira, março 16, 2011

TEMPO

Não quero viver
sem ti
mais nenhum tempo

Nem sequer um segundo
do teu sono

Encostar-me toda a ti
eu não invento
Tu és a minha vida o tempo todo

de Maria  Teresa Horta, "Sem ti"

O meu comentário????
Mas para quê falar do tempo???
Se o tempo só existe em ti...
Nada é meu....
Nem sei o que é o destino...
Porque as horas, os minutos, os segundos
são apenas o tempo
que me separa de ti.
E não sei o que
hei-de fazer com ele....

domingo, março 06, 2011

VOZ ALTA

O poema nasce
dentro das tuas mãos
sempre que repousa
nelas o teu rosto.

Não é uma canção:
são os lábios apenas
quando despertaram
antes da palavra.

Arquitectura última
que depois se eleva,
porque tu a criaste
para sempre livre.

Talvez uma ave
seja a sua forma
ao passar o voo
que continua o poema.

de Fernando Guimarães in "100 poemas portugueses para SMS"

O meu comentário???
Num sorriso,
num sussurro,
amo-te...
Escreve-se no poema,
nas asas desse ave que voa connosco....
Porque ela é a essência do poema...
Que desperta,
rasga,
conquista....
As emoções e os sentimentos....
Imperfeitos, imprecisos...
Porque nunca tinham voado....
Nunca tinham sonhado...
Nunca tinham sido escritos e ditos...
Em voz alta....




quarta-feira, março 02, 2011

SOFRO

Versos
escrevem-se
depois de ter sofrido.
O coração
dita-os apressadamente.
E a mão tremente
quer fixar no papel os sons dispersos...
É só com sangue que se escrevem versos

de Saúl Dias in "Sangue" -
incluído no livro
"A Alma não é pequena - 100 poemas portugueses para SMS"

O meu comentário???
Sofro hoje.
E não consigo escrever...
Se cansaço, se tristeza....
Nem o coração responde....
Não há chuva, não há vento....
Nada que me faça sentir cinzenta....
Mas eu, hoje, não tenho nada a dizer...
E esse "nada" talvez seja o "muito" a desabafar...


domingo, fevereiro 27, 2011

DESPOJADOS

Na ambígua intimidade
que nos concedem
podemos andar nus
diante de seus retratos.
Não reprovam nem sorriem
como se neles a nudez fosse maior

"Os Mortos" de Carlos Drummond de Andrade (escolhido por Vanuza Pantaleão)

O meu comentário???
Porque estão verdadeiramente esquecidos...
São apenas rostos.
Sem nomes, 
sem histórias....
Sem memórias escritas...
Não podem sorrir,
porque estão tristes...
Estão vulneráveis.....
Despojados
de tudo o que é viver....

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

GOLPE PROFUNDO

a porta entreaberta a prolongar
os teus passos  os castanheiros   a cidade em chamas

a minha voz a prometer-te uma carta
(prometo sempre cartas a quem se perde
entre o meu corpo e os patamares das escadas
de países desconhecidos)

mas tu já não ouviste ou então
tudo tinha deixado de fazer sentido

e eu a pensar ainda
uma palavra tua e eu serei salva

De Alice Vieira, "Dois Corpos Tombando na Água"

O meu comentário???
O que faz ou não sentido no adeus???
Nada....
É um golpe profundo no orgulho...
É o silêncio que se instala...
É a esperança que começa a ser pura ilusão....
A carta que se escreve e não se envia....
Os locais de que nos afastamos,
porque se viveu aqui intensamente....
São os limites que o tempo impõe...
Porque realmente deixa de fazer sentido esperar...
Por quem não quer voltar.....

domingo, fevereiro 20, 2011

ETERNAMENTE

a língua sobre a pele   o arrepio
os teus dedos na escada do meu corpo

as lâminas do amor  o fogo  a espuma
a transbordar de ti na tua fuga

a palavra mordida entre os lençóis
as cinzas de outro lume à cabeceira

da mesma esquina sempre o mesmo olhar
nada do que era teu vou devolver

de Alice Vieira "Pelas Mãos e pelos Olhos eu juro"

O meu comentário???
Não, nunca poderá ser devolvido...
Podemos pintar a casa, 
envernizar o chão...
Escolher outro perfume,
outro padrão para os lençóis....
Até mesmo mudar de casa,
de bairro.....
Mas será inútil....
Porque amar dessa maneira,
marcou-nos o tempo,
o corpo....
Falará connosco,
mesmo que em segredo,
eternamente 

terça-feira, fevereiro 15, 2011

NÃO SER

Lembrar os teus carinhos induz
a ter existido um pomar
intangíveis laranjas de luz
laranjas que apetece roubar.

Teu luar de ontem na cintura
é ainda o vestido que trago
seda imaterial seda pura
de criança afogada no lago.

Os motores que entre nós aceleram
os vazios comboios do sonho
das mulheres que estão à espera
são o único luto que ponho.

"Bilhete para um Amigo Ausente",
de Natália Correia in "O Vinho e a Lira"

O meu comentário???
Memórias....
Sempre as memórias que ficam...
Dolorosas, sombrias...
Porque é o fim?
O fim de tudo ou só do sonho?
Desse sonho
onde se dançou com a luz...
Rodeada dos cheiros da Primavera....
Ou o adeus ao amor...
Aquele que se evadiu dos corações.....
Por não ser o amor
com que tanto sonhávamos......




quarta-feira, fevereiro 09, 2011

PERDER A COR

Como dizer-te
que povoas o meu sono
ao cair da noite,
quando o dia termina,
despertando sensações
há muito escondidas em mim.

Como dizer-te
que a tua voz me possui,
entrando no meu ouvido,
como seta directa
ao coração.

Como dizer-te
das sensações primeiras
coração aberto
sorriso franco
em sangue quente
que me inunda e me dá alento.

Como dizer-te
que és maré alta
em noite de lua cheia.
Como dizer-te.

Poema de Menina Marota (Otília Martel)
em "Um desnudar de alma"

O meu comentário????
Como dizer-te enfim...
Amo-te, quero-te, desejo-te.....
Como explicar-te
o desnudar do meu corpo??
Como está tudo à flor da pele
e que basta tocares-me....
Para que todo este sangue quente jorre...
Pinte o desejo no meu corpo e te reencontre.....
No cheiro, no suor, na saliva....
Na carne, enfim....
Como dizer-te tudo isso......
se as palavras perdem as cores.....

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

DESERTO DE SENTIMENTOS

REMATE PARA QUALQUER POEMA»

«Passeou pelos espelhos dos dias
suas clandestinas alegrias
que mal se reflectiram desertaram»

In:
«AQUELE GRANDE RIO EUFRATES»
Rui Belo
 
enviado por JPD
 
O meu comentário????
Como posso escrever um poema
se eu próprio sou uma sombra?
Como posso falar no Sol
e na Lua se não os olho de frente?
Como pude deixar que o dia
 se transformasse num pesadelo?
Como a vida se resume
a duas pequenas e ingratas palavras.....
Se fui ingrato para com o que vida me deu....
Ou acreditei demais no que ela me disse.....
Estou desiludido,
sinto-me abandonado....
Não pela vida;
por a ter afastado da alegria
e vivermos, os dois,
num deserto de sentimentos..

segunda-feira, janeiro 31, 2011

ISSO

Por teus olhos negros, negros
Trago eu negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores...
E eles a dizer não.

E mais não quero outros olhos,
Negros, negros como são;
Que os azuis dão muita esp'rança
Mas fiar-me eu neles, não.

Só negros, negros eu os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim...
Nunca mais dizem que não

"Olhos Negros" de Almeida Garrett

O meu comentário???
Os meus olhos são castanhos...
Nunca te perguntei se gostavas deles...
Sempre me olhaste nos olhos...
Sempre me amaste
com os teus bem abertos...
Como se quisesses memorizar
todos os traços do meu rosto....
Se me procuras, se me desejas...
Se eu te quero, se eu te abraço....
Se o que lemos nos olhos um do outro
é a paixão que sentimos....
Basta saber isso.....


sexta-feira, janeiro 21, 2011

UM CRIME

entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos
regressar

e uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios

De Alice Vieira, "Amor e Outros Crimes em Vias de Perdão"

O meu comentário???
Vazios de amor e de vida....
Os olhos que se fixam no espelho
e não se reconhecem...
Feridos, desiludidos, distantes...
Os ombros estão contraídos;
a boca está seca...
As palavras enrolam-se,
sem sedução, sem sonhos....
E isso é realmente um crime.....