terça-feira, junho 28, 2011

HORAS DEMAIS

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina,
in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"
O meu comentário????
Memórias felizes de momentos..
Em que se amou
com a verdade da partilha...
É a conversa no café,
cheia de brincadeiras e risos....
A corrida até ao mar
e o beijo demorado às escondidas do sol...
É o livro novo em folha,
a discussão saudável do tema....
Amar, na verdade, sem pressa....
Parar o tempo naquele momento
em que sentimos
que estamos longe demais,
horas demais
fora da casa
e dos braços abertos....

quinta-feira, junho 23, 2011

SEM SONHAR

Não o Sonho

Talvez sejas a breve

recordação de um sonho

de que alguém (talvez tu) acordou

(não o sonho, mas a recordação dele),

um sonho parado de que restam

apenas imagens desfeitas, pressentimentos.

Também eu não me lembro,

também eu estou preso nos meus sentidos

sem poder sair. Se pudesses ouvir,

aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,

animais acossados e perdidos

tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,

desamarraram-me de mim e agora

só me lembro pelo lado de fora.


Manuel António Pina, in "Atropelamento e Fuga"

O meu comentário???
E expulso de mim....
o que vejo e o que sinto???
 
Quem sou eu
e porque deixei de sonhar???
Não consigo olhar para dentro...
Para dentro de mim
e sei que o tempo parou algures....
 
Nesse dia em que deixei de te sonhar
e de te ouvir...
Deixei de me amar....
Não mergulho mais
na profundidade das coisas...
Da vida, de mim.....

quarta-feira, junho 22, 2011

ABENÇOAR

Agora é tarde para novo rumo
Dar ao sequioso espírito; outra via
Não terei de mostrar-lhe e à fantasia
Além desta em que peno e me consumo.

Aí, de sol nascente a sol a prumo,
Deste ao declínio e ao desmaiar do dia,
Tenho ido empós do ideal que me alumia,
A lidar com o que é vão, é sonho, é fumo.

Aí me hei de ficar até cansado
Cair, inda abençoando o doce e amigo
Instrumento em que canto e a alma me encerra;

Abençoando-o por sempre andar comigo
E bem ou mal, aos versos me haver dado
Um raio do esplendor de minha terra.



ALBERTO DE OLIVEIRA



(Poeta Brasileiro 1857-1937)

O meu comentário???
Não creio que seja tarde...
Nem para sonhar...
Nem para dar um novo rumo à vida...
Abrir a alma a novos prazeres...
Abençoando o tempo....
Por aquilo que nunca se teve tempo
para se olhar verdadeiramente..
A terra onde nascemos....

domingo, junho 19, 2011

ESTRANHAMENTE

Acreditei no mar

Percorri a umbria de um eclipse
que nas vagas não reflectia

Apaguei os olhos e sorri com uma lágrima
Ao abrir, fitei o azul
o azul do céu ,do mar e da lua

Ouvi então estremecerem as ondas
e a areia lacrimar.

Voltaram os raios lunares,
voltei ao luar da noite
húmida e fria
em que me movo
e te deito.

Minha gárgula de vida,
meu eterno mar.

Nuno Travanca

O meu comentário???
Em ti, encontro a minha paz...
Tudo o que escondi de mim próprio...
Liberta-se e encaixa-se na razão...
Da minha vida....
Posso chorar e sei que não te importas....

Porque estás a chorar comigo???
Porque te levo na alma
e te abraço sempre que me sinto sozinha?
Devolves-me esse abraço,
essa paz....

Nada mais dizes....
Porque, estranhamente,
eu já sei o que tenho a fazer.....






sexta-feira, junho 17, 2011

OUSADIA







Barco Negro

Amália Rodrigues

Composição : David Mourão-Ferreira


De manhã, que medo, que me achasses feia!

Acordei, tremendo, deitada n'areia

Mas logo os teus olhos disseram que não,

E o sol penetrou no meu coração.[Bis]



Vi depois, numa rocha, uma cruz,

E o teu barco negro dançava na luz

Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas

Dizem as velhas da praia, que não voltas:



São loucas! São loucas!



Eu sei, meu amor,

Que nem chegaste a partir,

Pois tudo, em meu redor,

Me diz qu'estás sempre comigo.[Bis]



No vento que lança areia nos vidros;

Na água que canta, no fogo mortiço;

No calor do leito, nos bancos vazios;

Dentro do meu peito, estás sempre comigo


O meu comentário???

E na loucura....
Amanhecemos todos....
Em perguntas tolas...
Em suspiros profundos...
Desilusões num turbilhão...
Agarramo-nos à esperança
como se não soubessemos...
O significado da luz
e do negro....
E o que fica,
além das memórias,
é o mar....


P.S.: Que me perdoem a Amália Rodrigues e o David Mourão Ferreira
por ousar comentar este Fado....




quarta-feira, junho 15, 2011

POSITIVAMENTE

Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.
Maria do Rosário Pedreira
O meu comentário???
E sentirei mais coisas...
Lembrar-me-ei do teu sorriso....
Da tua alegria em viver....
Ajudaste-me a saborear a vida....
A compreender os labirintos que temos que atravessar....
Sem medo, ou mesmo que se tenha, a enfrentá-lo...
Espero que também te lembres de mim...
Como alguém que viveu contigo...
Positivamente......

segunda-feira, junho 13, 2011

A VERDADE NA PELE

Apesar das ruínas e da morte,

onde sempre acabou cada ilusão,

a força dos meus sonhos é tão forte,

que de tudo renasce a exaltação.

E nunca as minhas mãos ficam vazias.



Sophia de Mello Breyner Anderson - Poesia**
 
O meu comentário???
Nem que seja o sol a beijá-las....
A Lua a acarinhá-las....
O simples respirar
quando tocam o rosto....
Nada é uma ilusão....
É a verdade da pele...
Do corpo despido
e vestido em sonhos....
Nunca esquecidos...
Nunca vencidos
ou vendidos...
Por isso, nunca
vazios...
 
** Poema já publicado no blog, mas comentário reescrito

sábado, junho 11, 2011

GRANDIOSAS

Os amantes abrem o livro do que sentem
e só aceitam fechá-lo quando tudo
está já dito, sofrido, confessado.
Só eles existem enquanto a paixão dura
e só a luz do que sentem e sonham
é capaz de iluminar as veredas em que se perdem.
Só eles sabem o que sentem
e são de ontem, de hoje e de sempre,
eternos e livres, grandiosos e trágicos
como uma obra que quisesse resumir
a história toda do coração do mundo.

Excerto do poema "Último Poema dos Amantes" de José Jorge Letria,
in "O livro dos Amantes"

O meu comentário????
Nada resume...
Porque perdemo-nos
num labirinto de cores,
sensações e emoções....
Verdadeiras, vibrantes, grandiosas...
E, sim, livres
no nosso corpo, na nossa alma....
Nos risos e nos sonhos....
Encontramos a sensualidade,
o erotismo num desejo desconhecido,
que não nos atrevíamos a nomear....
Porque não era o momento
para vivermos a paixão....
É agora,
hoje,
neste instante, 
este minuto que é eterno...
Que, do nosso espelho nunca desaparecerá.....


quinta-feira, junho 09, 2011

SEM PALAVRAS OU VOZ

"Tu já não és só a minha amante, a mulher a quem dei para
sempre o meu coração: és mais que isso, és realmente a esposa da
minha alma, aquela a quem tenho consagrado a minha existência, e
para quem somente quero viver.
Juro-te isto à face do ceú e da terra, por minha honra to prometo.
Que mais queres que te diga, que mais há que prometer ou que fazer?"

Almeida Garrett em carta à viscondessa da Luz
(in "O Livro dos Amantes" de José Jorge Letria)

O meu comentário???
Nada....
Estou sem palavras, sem voz....
Escuto a tua, aguardo-a....
Sinto nela a paixão que aqui leio....
Não quero que me digas mais nada...
Prometas ou faças....
Também eu já não saberei viver mais sem ti.....

terça-feira, junho 07, 2011

AFECTO

A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado
A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.

Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.

José Jorge Letria,
in "A Metade Iluminada e Outros Poemas"

O meu comentário???
Pode ser o brilho do olhar...
Um sorriso triste ou simplesmente um abraço...
Afecto,
que se manifesta de tantas maneiras...
Como o mar ao enroscar-se em nós
e devolver-nos a capacidade de voltarmos a sonhar....
Ah, saudade das minhas gargalhadas felizes....
Agora, choro tanto por dentro,
que não sei se voltarei a rir....



sexta-feira, junho 03, 2011

NADA

A Sofreguidão de um Instante

Tudo renegarei menos o afecto,
e trago um ceptro e uma coroa,
o primeiro de ferro, a segunda de urze,
para ser o rei efémero
desse amor único e breve
que se dilui em partidas
e se fragmenta em perguntas
iguais às das amantes
que a claridade atordoa e converte.
Deixa-me reinar em ti
o tempo apenas de um relâmpago
a incendiar a erva seca dos cumes.
E se tiver que montar guarda,
que seja em redor do teu sono,
num êxtase de lábios sobre a relva,
num delírio de beijos sobre o ventre,
num assombro de dedos sob a roupa.
Eu estava morto e não sabia, sabes,
que há um tempo dentro deste tempo
para renascermos com os corais
e sermos eternos na sofreguidão de um instante.
José Jorge Letria, in "Variantes do Oiro"

O meu comentário???
Sei como é banal
afirmar-se isso...
Um instante,
uma eternidade....
Sei como o tempo
escorrega por entre os dedos...
E como há perguntas
que não devem ser feitas...
Para que não apaguem
depois memórias felizes...
Para que se possa,
efectivamente,
renascer
quando nos sentimos vazios...
De afectos,
de nós próprios...
Ou de nada....



quinta-feira, junho 02, 2011

ESCURIDÃO

O Amor Tudo Mata quando Morre

Eu morro dia a dia, sabendo-o, sentindo-o,
com a morte do amor em mim.
Esvaiu-se, ensandeceu, partiu,
espécie de sol sepultado por mãos ímpias,
numa cratera de lua, algures,
ou na tristeza de um retrato emudecido
pela ausência de vozes em redor.
Sem ele, a casa ficou deserta
de risos, acenos e afectos, de tudo,
as mãos ficaram ásperas, secas,
a pele do rosto gretada, fria,
e o sangue tornou-se lento e espesso,
incapaz de dar vida às pequenas folhas
orvalhadas da imaginação das noites.
A erva cresce em redor de mim,
os limões ficaram ressequidos sobre
a toalha bordada, num canto da mesa.
O amor tudo mata quando morre,
detendo no seu movimento elementar,
a máquina que ilumina o coração do dia.

José Jorge Letria, in "Quem com Ferro Ama"

O meu comentário???
Porque não te tenho...
Já não existo em ti...
As noites são apenas isso:
o acabar do dia...
O acabar de sonhos
e de afagos reais...
Desejos concretos
e beijos sem fim....
Fico sem vontade de falar,
ou mesmo de ouvir...
Perdi a vontade,
a certeza do que tinha....
Fiquei só, sem o calor do Sol....
Mesmo na escuridão da noite....

terça-feira, maio 31, 2011

DIGNIDADE

8ªSOMBRA

Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada...
Sobre as névoas te libras vaporoso ...

Baixas do céu num vôo harmonioso!...
Quem és tu, bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor a flor nevada
Cerca-te a fronte, ó ser misterioso! ...

Onde nos vimos nós? És doutra esfera ?
És o ser que eu busquei do sul ao norte. . .
Por quem meu peito em sonhos desespera?

Quem és tu? Quem és tu? - És minha sorte!
És talvez o ideal que est'alma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!

(Castro Alves - 1847 - 1871)

O meu comentário???
Ou simplesmente o amor....
O desejo ou a paixão....
O que sempre rejeitei....
Por medo???
Por egoísmo????
Tanta coisa pode ter sido....
Tanta coisa eu podia ter sido....
Talvez devesse ter olhado para o lado,
mais vezes....
Escutado quem precisava que o ouvisse....
O que devo fazer agora???
Se não é a sorte nem a glória....
Aceitar a morte com dignidade???

sábado, maio 28, 2011

MUROS

FANTASMAS
Mesmo que vós me toqueis,
ainda assim me não contento.
Mesmo que vós me leveis...
Estão muito longe os anéis
que há nos cabelos do vento...

Para nossos bailes de fumo
não há saletas reais.
Corpos de fio de prumo,
olhos de barco sem rumo,
e ouvidos nos temporais.

Quando a casa dorme e sonha
é que os passos vem espreitar.
Da torre negra, as cegonhas,
sobre a planície que sonha,
deitam fantasmas ao mar.

Minhas claras companhias!
Ainda assim me não contento.
Há-de haver praias vazias,
melancolias bravias
como aquelas que eu invento.

Tudo em mim é fracasso
já não tem raiz humana.
Nas pontas do mesmo laço
É que o aço nos irmana.

Convosco em pó me desato
e a viagem não termina.
Parto de mim em retrato,
no movimento sem acto
que o destino me destina.

(Natércia Freire – 1920 – 2004)
(enviado por Álvaro Lins)

O meu comentário????
Procuro....
Respostas no vazio....
Não sei como o preencher....
Porque ouso desafiar o destino...
Não falo de fama ou de glória....
Nem mesmo de felicidade...
Será rever-me nesse retrato....
Sonhar-me....
Inteiramente,
na minha própria voz....
Sem fantasmas do passado
ou do presente....
Que me falem de fracassos....
Há, apenas muros a derrubar.....

quarta-feira, maio 25, 2011

VIDA EM POEMA

NÃO FALO DE PALAVRAS

Não falo de palavras, nem de goivos,
mas de horas atadas ao pescoço.
Poema verdadeiro é sermos noivos:
saber tirar a pele e o caroço

ao grito entre a morte e outra morte
que nos mantenha lassos e despertos
até que venha o talhe que nos corte
e nos retire os poços e desertos.

Por isso, meu amor, o que te dou,
beijo beijado em corpo claro e vivo,
é mais que o verso que te dizem, ou
aliterante, agudo ou conjuntivo.

Colado a tudo, mesmo a contragosto,
o rio inventa o verso, e não assim
como se ao espelho visse o próprio rosto,
mas tu além-palavra, ao pé de mim.

(Pedro Tamen – 1934)
(enviado por Álvaro Lins)

O meu comentário???
O que se sente no corpo....
Vibra a vida,
o desejo num poema real....
Com palavras sentidas na pele....
Que grita com o ardor da paixão....
Em que nada se inventa....
Tudo é possível....
Nesse poema
que é a vida...

segunda-feira, maio 23, 2011

NOITE

Sem outra Palavra para Mantimento

Sem outra palavra para mantimento
Sem outra força onde gerar a voz
Escada entre o poço que cavaste em mim e a sede
Que cavaste no meu canto, amo-te
Sou cítara para tocar as tuas mãos.
Podes dizer-me de um fôlego
Frase em silêncio
Homem que visitas
Ó seiva aspergindo as partículas do fogo
O lume em toda a casa e na paisagem
Fora da casa
Pedra do edifício aonde encontro
A porta para entrar
Candelabro que me vens cegando.
Sol
Que quando és nocturno ando
Com a noite em minhas mãos para ter luz.

Daniel Faria, in "Dos Líquidos"

O meu comentário???
Porque encontrei a luz
ou perdi-a?
Não sei....
Ás vezes,
perco-me nos pensamentos,
nas palavras,
que encantam a alma...
A minha...
Secam-lhe as lágrimas,
hoje num dia
tão triste,
que
parece realmente noite....

Em memória da minha Mãe
26/2/1924 - 23/5/2010


sábado, maio 21, 2011

LONGAMENTE

COISA AMAR

Contar-te longamente as perigosas

coisas do mar. Contar-te o amor ardente

e as ilhas que só há no verbo amar.

Contar-te longamente, longamente.



Amor ardente. Amor ardente. E mar.

Contar-te longamente as misteriosas

maravilhas do verbo navegar.

E mar. Amar: as coisas perigosas.



Contar-te longamente que já foi

num tempo doce coisa amar. E mar.

Contar-te longamente como dói



desembarcar nas ilhas misteriosas.

Contar-te o mar ardente e o verbo amar.

E longamente as coisas perigosas.



Poema de Manuel Alegre
(enviado por Álvaro Lins)

O meu comentário???
Longamente amar-te.....
Sem respeitar as regras do verbo...
Porque amar é simplesmente amar...
Com paixão,
com esse ardor
que não se conta nas palavras...
Porque é misterioso
e os caminhos que traça na pele....
São infinitos.....
Tão infinitos como amar longamente.....

quinta-feira, maio 19, 2011

PRESENÇA

HINO À DOR


Sorri com mais doçura a boca de quem sofre,
Embora amargue o fel que os seus lábios beberam;
É mais ardente o olhar onde, como um aljofre,
A Dor se condensou e as lágrimas correram.
 
Soa, como se um beijo ou uma carícia fosse,
A voz que a soluçar na Desgraça aprendeu;
E não há para nós consolação mais doce
Que o regaço de quem muito amou e sofreu.
 
Voz, que jamais vibrou num soluço de mágoa,
Ao nosso coração nunca pode chegar...
Mas o pranto, ao cair duns olhos rasos de água,
Torna mais penetrante e mais profundo o olhar
 
Lábio, que só bebeu na fonte da Alegria,
É frio, como o olhar de quem nunca chorou;
A Bondade é uma flor que se alimenta e cria
Dos resíduos que a Dor no coração deixou.
 
Em tudo quanto existe o Sofrimento imprime
Uma augusta expressão... mesmo a Suprema Graça,
Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime
Que torna imorredoira a Inspiração que passa.
 
É por isso que a Dor, sem trégua nem guarida,
Dor sem resignação, Dor de estóico ou de santo,
Só de a vermos passar no tumulto da Vida
Deixa os olhos da gente enublados de pranto.
 
(António Feijó – 1859 – 1917)
(Enviado por Álvaro Lins)

O meu comentário???

O choro secreto....
O conflito de tudo -
raiva, indignação, revolta...

E o choro forte, pesado...
Magoa quem ouve...
Quem se sente impotente,
 às vezes....
Porque tem medo de não saber
a palavra certa....

Não há palavra certa;
há apenas a presença...





domingo, maio 15, 2011

24 HORAS

Quando já não há nada

absolutamente nada pra dizer

e cada dia te parece apenas

uma longa e inútil sequência

de vinte e quatro horas vazias



Quando uma folha de papel

é um deserto branco já sem rosto

um firmamento sem constelação

uma página nua, uma página

muda

há dois rápidos olhos que te falam

desde sempre da terra prometida



Consegues fixá-los Não tens medo?

Vê como arde súbito o seu gelo

no fundo das pupilas

e não hesites – rouba essa vertigem

ao coração da noite

porque às vezes não há outra saída

para algumas palavras que ainda podem

ser um arco uma flecha

perto do alvo que ninguém conhece

Poema de Fernando Pinto Amaral

O meu comentário???
E fala...
Grita todas essas palavras...
Sem medo...
Alguém as escutará...
E essa página não ficará em branco....
Não roubes nada à noite...
Torna-te num aliado....
E as 24 horas do dia....
Vive-as apenas......
Por ti....