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CALMO

Sofro de não te ver, de perder os teus gestos leves, lestos, a tua fala que o sorriso embala, a tua alma, límpida, tão calma. Sofro de te perder, durante dias que parecem meses, durantes meses que parecem anos... Quem vem regar o meu jardim de enganos, tratar das árvores de tenrinhos ramos? "Sofro de não te ver ver" de Saúl Dias in "Sangue" (inéditos) O meu comentário??? Sofrer por ti.... com a mesma paixão com que te amei... Tudo deixa de ter significado, porque tudo foi um engano. E nada é calmo, límpido... E cada gesto que se recorda, fica a dúvida. Não seria já o fim e não o li? Não o senti??? Não sei o que acontecerá... Quem entrará no jardim e o que dirá... Por enquanto, só cá estou eu...

HORIZONTE

Escrevo... O teu nome de sombra num leito de chocolate no envolvente degrau da espaçada memória. Escrevo.. Omitindo a ténue licença do sol despontando pela linha das flores, na caixa em eterna viagem. E, da vida, teço outonais ramas de palavras de infinitude suspensa. Escrevo.. A inefável nudez da hora. "Escrevo" de Fátima Fernandes (Amita - blog Branco e Preto) - publicado na II Antologia de Poetas Lusófonos O meu comentário??? Há dias em que não é fácil escrever... Porque as horas estão nuas, vazias... As palavras estão algures, perdidas, suspensas... E, eu não quero perder o Sol de vista... Ainda me consola... Ainda me escreve na pele mensagens de amor... Gostava que fossem as tuas.... Mas.... esse eterno " mas" que se entranha em nós...... Está lá nessa linha infinita do horizonte...

AUGE

No coração da mina mais secreta, No interior do fruto mais distante, Na vibração da nota mais discreta, No búzio mais convolto e ressonante, Na camada mais densa da pintura, Na veia que no corpo mais nos sonde, Na palavra que diga mais brandura, Na raiz que mais desce, mais esconde, No silêncio mais fundo desta pausa, Em que a vida se fez perenidade, Procuro a tua mão, decifro a causa De querer e não crer, final, intimidade "Intimidade" de José Saramago O meu comentário??? Continuas a falar em simplicidade... Nas pausas que se fazem ao longo do dia, em que nos lembramos de quem nos aguarda. Com essa serenidade, essa brandura que, pensa-se, só se encontra na velhice.. Encontro-a, todas as vezes, que penso em ti... Todas as vezes, que te quero com tanta intensidade que acho que vou morrer... E já não estou no auge da minha vida... Mas ainda não envelheci totalmente....

O OLHAR

Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras; Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento. Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais. De Fernando Pessoa O meu comentário??? O que é real??? Nem eu própria sei, às vezes, se sou real... Se o olhar mente??? O olhar divaga, percorre distâncias, preenche o pensamento... Sorri na transparência do dia, em que tudo é irreal... Estranhamente, os contornos da noite é que ditam a realidade das coisas.... Porque há o silêncio.... Que se interpreta a si próprio......

ENRIQUECER O DIA

Aprendamos, amor, com estes montes Que, tão longe do mar, sabem o jeito De banhar no azul os horizontes. Façamos o que é certo e de direito: Dos desejos ocultos outras fontes. E desçamos ao mar do nosso leito "Aprendamos, amor" de José Saramago O meu comentário??? A ver a simplicidade das coisas... Sem as tornar banais... Nossas sem o sentido de posse... Mergulhar os pés no mar e deixar que o pôr-do-sol nos toque... Porque sinto como o azul pode descer pelas montanhas... Posso não ter a certeza de que me amas.... Mas sei como a beleza dessas coisas tão simples me enriquecem o dia....

NADA É INCERTO

É doce a tentação do labirinto assim que o sono chega e se propaga ao contorno das coisas. Mal as sinto quando confundo a onda sempre vaga deste falso cansaço que regressa ao som da minha estranha e dócil fala cada vez mais submersa como essa pequena luz da rua que resvala pelo interior da noite. É quase um sonho a respirar lá fora enquanto o quarto se dilui na fronteira que transponho e afoga a consciência de onde parto agora sem direito nem avesso no incerto momento em que adormeço. "Fronteira" de Fernando Pinto do Amaral O meu comentário??? Sonhar... Mergulhar no interior da noite é mágico. Deixar para trás o que está a mais.... Descobrir o que nos falta, o que nos une e forma o todo. Viver é um labirinto... mas o sonho é doce.... Não há fronteiras, não há limites.... Nada é incerto.... nem mesmo a luz onde se caminha....

MUNDO VERDADEIRO

Esta noite morri muitas vezes, à espera de um sonho que viesse de repente e às escuras dançasse com a minha alma enquanto fosses tu a conduzir o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo, toda a espiral de horas que se erguessem no poço dos sentidos. Quem és tu, promessa imaginária que me ensina a decifrar as intenções do vento, a música da chuva nas janelas, sob o frio de fevereiro? O amor ofereceu-me o teu rosto absoluto, projectou os teus olhos no meu céu e segreda-me agora uma palavra: o teu nome - essa última fala da última estrela quase a morrer pouco a pouco embebida no meu próprio sangue e o meu sangue à procura do teu coração. "Segredo" de Fernando Pinto do Amaral O meu comentário??? Quem sou eu na verdade??? Serei a tua musa? A tua estrela-guia? O teu segredo? A verdade da tua vida... Danço contigo, sim, deslizo contigo nos raios das estrelas... Divago nos teus sonhos, deixo que me procures nos meus... Sou a voz que te segreda "Amo-te"... Que te sorrie e ...