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ENQUANTO ESCREVO

SAUDADE A saudade me aperta Em mim tão docemente Minha alma de engano Nesta paz aberta, Com este meu mal contente Que me causa tanto dano; Neste papel a desabafar-me... Nos teus olhos preso Esta vida que mal me atrevo Continuou a enganar-me Saudade vai-te embora, te peço Pelo menos enquanto escrevo. Frankelim Gomes Amaral (Livro "II Antologia de Poetas Lusófonos) O meu comentário??? Enquanto escrevo... Engano-me... Por entre palavras rebuscadas e que os outros não entendem.. É tudo o que a minha alma consegue dizer.. Pois sou um prisioneiro, a quem a saudade nega os direitos mais fundamentais... Ver-te, sentir-te, amar-te...

AMPULHETA

Tempo Tempo — definição da angústia. Pudesse ao menos eu agrilhoar-te Ao coração pulsátil dum poema! Era o devir eterno em harmonia. Mas foges das vogais, como a frescura Da tinta com que escrevo. Fica apenas a tua negra sombra: — O passado, Amargura maior, fotografada. Tempo... E não haver nada, Ninguém, Uma alma penada Que estrangule a ampulheta duma vez! Que realize o crime e a perfeição De cortar aquele fio movediço De areia Que nenhum tecelão É capaz de tecer na sua teia! Miguel Torga, in 'Cântico do Homem' O meu comentário??? Escapa-se... O tempo não perdoa e canta... Alegremente, com certezas, sem diplomacia.. Pode oferecer conselhos, mas é rude.. Afinal, para quê perder tempo em ser educado??? Sobrevive a tudo.. À ampulheta que parte, ao tear que enferruja, à tapeçaria que perde as cores.. Uma luta desigual? O tempo que a areia leva a desaparecer da nossa mão....

DESTROÇOS

O Tempo Vive O tempo vive, quando os homens, nele, se esquecem de si mesmos, ficando, embora, a contemplar o estreme reduto de estar sendo. O tempo vive a refrescar a sede dos animais e do vento, quando a estrutura estremece a dura escuridão que, desde dentro, irrompe. E fica com o uivo agreste espantando o seu estrondo de silêncio. Fernando Echevarría, in "Sobre os Mortos" O meu comentário??? O tempo permanece.. Ás vezes, tão quieto que não o sentimos. E de repente, deixa-nos na escuridão. Numa vida muito solitária, em que nada conta. Porque o tempo tomou conta de tudo e até da nossa memória, apagou a voz. Não sei o que acontece quando passamos a fronteira. Não sei o que deixamos para trás. O tempo refrescou tudo, abrindo a porta ao mar, sepultando na areia destroços.

ACENO TROCISTA

rabiscos mudos o poeta é a obra manobra do vento talento que sobra destino ou tormento o sonho que anuncia o alvorecer do dia re.nasce à sangria fruto mestria a fama elouquece o tarso sustento a galope o tempo é inimigo do tempo ousasse a melancolia ser em mim euforia a trote re.inventaria todos os dias num só dia Poema enviado por Paulo (Blog Intemporal) - em resposta ao desafio do post anterior O meu comentário??? Reinventar... Não sei o que reinventaria.. Desperdiçar um momento.... Há muito que aprendi que não devo lamentar os momentos que perdi... Sonhar com os que posso ainda ter... Sim, sempre... Com UMA força que desconheço em mim... Para esquecer essa monotonia que me acena trocista, mas que acredit o que vencerei....

PERDER ESSE

Poeminha sobre o Tempo O despertador desperta, acorda com sono e medo; por que a noite é tão curta e fica tarde tão cedo? Millôr Fernandes, in "Pif-Paf" O meu comentário??? Porque se desperdiça o tempo, realmente? Porque não usufruímos dele na totalidade? Porque fica essa sensação de que falta alguma coisa? Será o medo de não sermos perfeitos que nos tortura e nos faz perder o tempo? O tempo que temos para o amor.... Verdadeiro, sentido e desejado.... Que nunca se perca esse.... ====================== Hoje, o "Com Amor propõe um desafio: Poemas sobre o tempo Vosso, do vosso poeta favorito.. Citações, pensamentos. Tem que falar sobre o tempo obrigatoriamente... Obrigada

TERNURA PRESENTE

Ternura Desvio dos teus ombros o lençol, que é feito de ternura amarrotada, da frescura que vem depois do sol, quando depois do sol não vem mais nada... Olho a roupa no chão: que tempestade! Há restos de ternura pelo meio, como vultos perdidos na cidade onde uma tempestade sobreveio... Começas a vestir-te, lentamente, e é ternura também que vou vestindo, para enfrentar lá fora aquela gente que da nossa ternura anda sorrindo... Mas ninguém sonha a pressa com que nós a despimos assim que estamos sós! David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal" O meu comentário??? O que dizer? Quando se sorrie verdadeiramente... Não só com o amor que nos afaga o corpo... O amor enraizado na alma também... O aconchego dos braços com a ternura presente... Ocupando todo o espaço... Do sonho... Da paixão... Do Amor... Enfim...

A ONDA

Soneto do amor difícil A praia abandonada recomeça logo que o mar se vai, a desejá-lo: é como o nosso amor, somente embalo enquanto não é mais que uma promessa... Mas se na praia a onda se espedaça, há logo nostalgia duma flor que ali devia estar para compor a vaga em seu rumor de fim de raça. Bruscos e doloridos, refulgimos no silêncio de morte que nos tolhe, como entre o mar e a praia um longo molhe de súbito surgido à flor dos limos. E deste amor difícil só nasceu desencanto na curva do teu céu. David Mourão-Ferreira O meu comentário???? Porque, às vezes, o amor perde o encanto... Porque não era amor verdadeiro.... E nada escreveu na onda... Que regressa sempre à praia... Com outra força, com outra dimensão... Mesmo que se desfaça contra o penhasco...