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QUEM AS DIZ

É por dentro de um homem que se ouve o tom mais alto que tiver a vida a glória de cantar que tudo move a força de viver enraivecida. Num palácio de sons erguem-se as traves que seguram o tecto da alegria pedras que são ao mesmo tempo as aves mais livres que voaram na poesia. Para o alto se voltam as volutas hieráticas sagradas impolutas dos sons que surgem rangem e se somem. Mas de baixo é que irrompem absolutas as humanas palavras resolutas. Por deus não basta. É mais preciso o homem. "Nona Sinfonia" - Ary dos Santos in "O Sangue das Palavras" O meu comentário??? As palavras são livres... Tornam-se eternas e sagradas para quem as declama por amor. Para quem diz na poesia a essência da vida... Deixa as verdades nas entrelinhas... Nos sons que as encantam... Numa canção de louvar... Seja a Deus... seja ao Homem... Que fiquem... No coração de quem as diz, de quem as ouve. De quem as escreve, com toda a certeza de que são absolutas...

COM A ALMA

Out of the night that covers me Black as the Pit from pole to pole I thank whatever Gods may be For my unconquerable soul. In the fell clutch of circumstance I have not winced or cried aloud Under the bludgeoings of chance My head is bloody, but unbowed Beyond this place of wrath and tears Looms but the Horror of the shade And yet the menace of the years Finds, and shall find me, unafraid It matters not how strait the gate How charged with punishments the scroll, I am the master of my fate; I am the capitan of my soul "Invictus" de Willian Ernest Henley (1849 - 1903)** O meu comentário??? Baixei a minha cabeça e vivi no medo. Procurei conforto na escuridão... atormentada com as imagens e as exigências impostas pelos outros.. Sem certezas do que queria verdadeiramente. Cega, surda e muda... no caminho mais fácil.. Não olhei para dentro da minha alma; ignorei-a... Não tomei conta do meu destino e perdi o respeito por mim... Hoje, aprendi a ser tolerante... Não exigo; compreendo...

MÁGICO

Invento-te recordo-te distorço a tua imagem mal e bem amada sou apenas a forja em que me forço a fazer das palavras tudo ou nada. A palavra desejo incendiada lambendo a trave mestra do teu corpo a palavra ciúme atormentada a provar-me que ainda não estou morto... E as coisas que eu não disse? Que não digo: Meu terraço de ausência meu castigo meu pântano de rosas afogadas... Por ti me reconheço e contradigo chão de palavras mágicas joio e trigo apenas por ternura levedadas.... "Soneto de Mal Amar" de Ary dos Santos in "O Sangue das Palavras" O meu comentário??? E é sangue que sinto ao morder os lábios.. Ao sentir todo esse desejo de largar nas palavras escritas O que não desabafo... Esse amor... esse ciúme... sempre com esse desejo... Essa ternura caótica que percorre todo o meu corpo... Em que tudo, não só as palavras, é mágico.... Porque é puro e suspira em mim...

FALAR AGORA

Contam que em pequenino costumava, Ao ver-me num cristal reproduzido, Beijar a própria boca, em que julgava Ver a boca de alguém desconhecido. Cresci. Amei-a. E tão alheio andava, No sonho por seus olhos promovido, Que em vez de cartas que ela me enviava Eu lia o que trazia no sentido... Rodou o tempo. Estou doente e velho... Agora se me acerco dum espelho... Oh meus cabelos, noto que alvejais... E as cartas dela, se as releio agora, Só vejo por aquelas linhas fora, Palavras e palavras...Nada mais! Poema de Augusto Gil O meu comentário??? Com os quais já não sonho... Não lhes descubro o sentido... Já nem sei se amei ou mesmo o que é o amor... E, o espelho é impiedoso... Ou terei sido eu quem se esqueceu de olhar? E decifrar no reflexo as verdadeiras palavras.... O prazer do beijo, da paixão, do amor... Não falam comigo agora???

MAPA

Lembra-te que todos os momentos que nos coroaram todas as estradas radiosas que abrimos irão achando sem fim seu ansioso lugar seu botão de florir o horizonte e que dessa procura extenuante e precisa não teremos sinal se não o de saber que irá por onde fomos um para o outro vividos Poema de Mário Cezariny in "Pena Capital" O meu comentário??? O que lembras? O que dizes? Tudo tem o seu lugar. Tudo tem o seu preço. Sem que haja resposta que atenue a dor, a ansiedade, a tristeza de memórias. Hoje tudo pode parecer radioso.. Amanhã pode ser o dilúvio e do mapa, ficar apenas o saber o que era uma mapa...

A VIDA

Recomeça... Se puderes Sem angústia Sem pressa. E os passos que deres Nesse caminho duro Do futuro Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade. E, nunca saciado Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar. Sempre a sonhar e vendo O logro da aventura. És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde, com lucidez, te reconheças... De Miguel Torga O meu comentário??? A maior aventura?? A maior ilusão??? Viver... Gritar bem alto que se está vivo... Não ter medo dessa loucura saudável... A vida que se reconhece, se abre em nós... No reflexo do espelho, sem nos intimidar pela pressa dos outros... Nós vamos saborear muito mais que o fruto... Nós vamos viver no pomar desse sonho maior que o Mundo... A vida, enfim...

AINDA VIVO

Meu amor meu amor meu corpo em movimento minha voz à procura do seu próprio lamento. Meu limão de amargura meu punhal a escrever nós parámos o tempo não sabemos morrer e nascemos nascemos do nosso entristecer. Meu amor meu amor meu nó e sofrimento minha mó de ternura minha nau de tormento este mar não tem cura este céu não tem ar nós parámos o vento não sabemos nadar e morremos morremos devagar devagar "Meu amor meu amor" - José Carlos Ary dos Santos O meu comentário??? Podemos não saber nadar... Sabemos sonhar... Sonhos tristes não.... deixar que as tormentas se calem... Esperar pelo Vento, pelo Sol... Encanto encontrado na doce sensação de beijos solares... Rir e naufragar na ternura do corpo envelhecido, mas ainda vivo.... Nunca morrer... nunca deixar o sonho morrer... Mesmo que o nome desapareça.... PARA OS MEUS PAIS....