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PÃO

vais ver há-de romper uma noite em que nem seremos capazes de reconhecer a nossa própria voz perguntando pelo nome que fugiu da nossa boca e ao estendermos as mãos sobre a toalha da mesa do jantar será apenas o cheiro do pão quente a ficar  remotamente  entre os dedos e uma jarra sem flores a tentar decifrar a ausência de quem nos amava e um choro a abandonar-nos naquele momento em que o fim do verão nos explicava tudo. de Alice Vieira O meu comentário??? O "tudo" que passou a ser "nada"... Um "nada" sem voz, um "nada" ausente... O fim do verão é o fim da distância... Esse distância que não se explica.... Porque já se amou e não se volta a amar assim... Aquela será a última conversa... Naquela mesa, com aquela toalha que ficará esquecida, na gaveta, rejeitada, culpada por ter ainda o cheiro do pão entranhado. ..

MAPA DO TESOURO

Uma declaração de amor não é acontecimento de domínio público, uma baleia que vara na praia sob o sol dos desastres e convoca multidões, desalinhando hábitos quotidianos: uma declara- ção de amor é um acto de grande intimidade que ergue um véu transparente de onde brotam mel e pássaros azuis. As palavras directas ou indirectas, ditas ou escritas, suscitam a carícia única, irrepe- tível, a leve percussão que desenha no silêncio a imagem de quem se ama. E assim terá de se guardar. Num lugar seguro onde os sismos não possam encontrar o mapa de tesouro de Egito Gonçalves O meu comentário??? O meu lugar seguro é o meu coração... Onde escrevo tudo... As palavras que já te disse, as que pensei dizer-te hoje... E as que não vou repetir amanhã, porque fiquei em silêncio... Com o beijo carinhoso e suave com que fechaste o meu dia... A noite pode ser azul e doce.... Mas ignoramos tudo..... Mesmo o mapa do tesouro.... Sabemos perfeitamente onde estamos...

PERFUME DA NOITE

As formas, as sombras, a luz que descobre a noite e um pequeno passáro e depois longo tempo eu te perdi de vista meus braços são dois espaços enormes os meus olhos são duas garrafas de vento e depois eu te conheço de novo numa rua isolada minhas pernas são duas árvores floridas os meus dedos numa plantação de sargaços a tua figura era ao que me lembro da cor do jardim. "Z" de António Maria Lisboa O meu comentário??? Porque insistes em falar em solidão??? Se a noite se cala e nada mais há a dizer... Esquecer???? Não é fácil, pois não??? Com tantas memórias escritas em coisas tão simples... Como o perfume da noite ou árvore que floresce.... A vida parece mesmo vazia.... Mas estará realmente????

TUDO

Andas pela casa com passos leves, pousas a mão no colo, sorris. E eu acredito que o mundo te acompanha. Como ecos do que fazes, formam-se nuvens sobre o mar e cantam pássaros em países distantes. Sei que é assim. O teu olhar sustenta o céu imenso, a luz dos astros, todas as galáxias. " O teu olhar sustenta o céu imenso" de José Mário Silva O meu comentário??? E eu refugio-me no teu olhar... E não falo.... Deixo que seja o mundo a falar-te... E no teu sorriso encontro as respostas a tudo... Porque amo-te por completo.... Vivemos como um todo.... Por isso, tudo é imenso.... Tudo...  é este amor em que nos sorrimos.....

NA LUZ

Eu ontem vi-te... Andava a luz Do teu olhar, Que me seduz A divagar Em torno a mim. E então pedi-te, Não que me olhasses, Mas que afastasses, Um poucochinho, Do meu caminho, Um tal fulgor De medo, amor, Que me cegasse, Me deslumbrasse Fulgor assim. de Ângelo de Lima O meu comentário??? A verdade é que quero que me vejas.... Sente-me nesse desejo escondido na luz... A luz em que os nossos corpos se entrelaçam... Numa paixão que nunca poderemos negar.... Revela-se em nós, nesse olhar que nos preenche.... Com luz....

PALAVRAS DE CONSOLO

Quando os teus olhos absorvem todas as cores da minha mais íntima tristeza, e compreendes e calas e prometes um lugar qualquer na tua alma e a tua voz demora a regressar ao neutro compromisso das palavras, sei que as tuas mãos ajudariam a limpar estas lágrimas antigas por dentro do meu rosto de Vitor Matos e Sá O meu comentário??? Fala-se, sente-se amor.... Respeita-se o tempo e o espaço... Mais importante que as palavras de consolo... Nunca se esquece totalmente a dor.... Há momentos em que essas lágrimas antigas massacram a alma... Se encontramos alguém que sabe que elas existem, mas ignora-as.... Ama-nos, de todo o coração...

NA PELE

como dizer aos meus olhos que se afastem do incêndio que lavra a oriente do teu sangue rasgando a minha fome e me protejam nesta imperfeita madrugada em que as línguas dos homens e dos anjos se confundem de Alice Vieira,  in "Cinco Breves Momentos de Maio" O meu comentário??? Como dizer, enfim que tudo acabou? Como apagar o desejo, a paixão que ainda vejo nos meus olhos?? Como te quero ainda.... Fico sem saber o que pensar.... Fico acordada, sem paz..... Porque ainda te escuto.... Ainda repito baixinho as tuas palavras de amor.... Ainda as sinto numa carícia na pele....