segunda-feira, março 22, 2010

AMARGURA

Devagar, como se tivesse todo o tempo do dia,
descasco a laranja que o sol me pôes pela frente. É
o tempo do silêncio, digo, e ouço as palavras,
que saem dentro dele, e me dizem que
o poema é feito de muitos silêncios,
colados como os gomos da laranja que,
descasco. E quando levanto o fruto à altura
dos olhos, e o ponho contra o céu, ouço
os versos soltos de todos os silêncios
entrarem no poema, como se os versos
fossem os gomos que tirei de dentro
da laranja deixando-a pronta para o poema,
que nasce quando o silêncio sai de dentro dela.
"O som do silêncio" de Nuno Júdice (Livro "Guia de Conceitos Básicos")
O meu comentário???
Sim, reconheço o silêncio...
Nem sempre escrevo nele poemas.
As palavras ficam absurdas
e o poema oco...
Deixo frases soltas na brisa
que o silêncio devolve...
Somos velhos companheiros
e conhece-me tão bem...
Se não escrever hoje,
se nada me soar coerente...
Ele perdoa-me....
Se o encher de cores e de cheiros,
ele sabe que estou feliz....
A única coisa que odeia, esse silêncio,
é ser interrompido
pelo som da amargura...
Essa que lhe corta o coração,
porque as minhas lágrimas
ficam sempre inscritas
num poema solitário...

4 comentários:

Daniel Costa disse...

Marta

Não conhecia ainda este poema de Nuno Júdice, poeta que aprecio. Comentário: mesmo tendo em conta que estará mais facilitada a escrita, à vista só poema, só uma poetisa com o teu tamento, consegue ombrear, como o fizeste. Afinal como fazes sempre. Quero que saibas, que sou um apreciador do teu género de escrever poesia!
Beijos
Daniel

Juliana Mendes disse...

adoorei...
o original...
e a sua critica...
é realmente o silencio 'dele' tem me rendido vários post's...
chega a ser insuportavel, a vontade de escrever sobre isso, é como se os gomos da laranja fossem infinitos, ou então que o pé esteja bem carregado e não só o sol como a lua também me mostrassem ele, porque é a noite em que esses pensamento mais me pertubam!
ele me pertence de algum modo, é como quando vc sente que a menstruação vai chegar, ou que algo de importante vai acontecer, é como quando você não controla o que faz nem o que fala... você sabe até onde pode ir, mas isso não te empedi de pensar!
=X

Graça Pires disse...

Nuno Júdice é um autor de referência. Gostei muito do poema (que já conhecia) e gostei do teu comentário. Gostei que reconhecesses o silêncio onde escreves sempre os teus poemas...
Um beijo.

frank verlag disse...

Excelente escolha. Pois.