sábado, maio 28, 2011

MUROS

FANTASMAS
Mesmo que vós me toqueis,
ainda assim me não contento.
Mesmo que vós me leveis...
Estão muito longe os anéis
que há nos cabelos do vento...

Para nossos bailes de fumo
não há saletas reais.
Corpos de fio de prumo,
olhos de barco sem rumo,
e ouvidos nos temporais.

Quando a casa dorme e sonha
é que os passos vem espreitar.
Da torre negra, as cegonhas,
sobre a planície que sonha,
deitam fantasmas ao mar.

Minhas claras companhias!
Ainda assim me não contento.
Há-de haver praias vazias,
melancolias bravias
como aquelas que eu invento.

Tudo em mim é fracasso
já não tem raiz humana.
Nas pontas do mesmo laço
É que o aço nos irmana.

Convosco em pó me desato
e a viagem não termina.
Parto de mim em retrato,
no movimento sem acto
que o destino me destina.

(Natércia Freire – 1920 – 2004)
(enviado por Álvaro Lins)

O meu comentário????
Procuro....
Respostas no vazio....
Não sei como o preencher....
Porque ouso desafiar o destino...
Não falo de fama ou de glória....
Nem mesmo de felicidade...
Será rever-me nesse retrato....
Sonhar-me....
Inteiramente,
na minha própria voz....
Sem fantasmas do passado
ou do presente....
Que me falem de fracassos....
Há, apenas muros a derrubar.....

quarta-feira, maio 25, 2011

VIDA EM POEMA

NÃO FALO DE PALAVRAS

Não falo de palavras, nem de goivos,
mas de horas atadas ao pescoço.
Poema verdadeiro é sermos noivos:
saber tirar a pele e o caroço

ao grito entre a morte e outra morte
que nos mantenha lassos e despertos
até que venha o talhe que nos corte
e nos retire os poços e desertos.

Por isso, meu amor, o que te dou,
beijo beijado em corpo claro e vivo,
é mais que o verso que te dizem, ou
aliterante, agudo ou conjuntivo.

Colado a tudo, mesmo a contragosto,
o rio inventa o verso, e não assim
como se ao espelho visse o próprio rosto,
mas tu além-palavra, ao pé de mim.

(Pedro Tamen – 1934)
(enviado por Álvaro Lins)

O meu comentário???
O que se sente no corpo....
Vibra a vida,
o desejo num poema real....
Com palavras sentidas na pele....
Que grita com o ardor da paixão....
Em que nada se inventa....
Tudo é possível....
Nesse poema
que é a vida...

segunda-feira, maio 23, 2011

NOITE

Sem outra Palavra para Mantimento

Sem outra palavra para mantimento
Sem outra força onde gerar a voz
Escada entre o poço que cavaste em mim e a sede
Que cavaste no meu canto, amo-te
Sou cítara para tocar as tuas mãos.
Podes dizer-me de um fôlego
Frase em silêncio
Homem que visitas
Ó seiva aspergindo as partículas do fogo
O lume em toda a casa e na paisagem
Fora da casa
Pedra do edifício aonde encontro
A porta para entrar
Candelabro que me vens cegando.
Sol
Que quando és nocturno ando
Com a noite em minhas mãos para ter luz.

Daniel Faria, in "Dos Líquidos"

O meu comentário???
Porque encontrei a luz
ou perdi-a?
Não sei....
Ás vezes,
perco-me nos pensamentos,
nas palavras,
que encantam a alma...
A minha...
Secam-lhe as lágrimas,
hoje num dia
tão triste,
que
parece realmente noite....

Em memória da minha Mãe
26/2/1924 - 23/5/2010