sábado, outubro 10, 2009

VISÃO DE OLIMPO

Nascemos um para o outro, dessa argila

De que são feitas as criaturas raras;

Tens legendas pagãs nas carnes claras

E eu tenho alma de fauno na pupila..


Às belezas heróicas te comparas

E em mim a luz olímpica cintila

Gritam em nós todas as nobres taras

Daquela Grécia esplêndida e tranquila...


É tanta a glória que nos encaminha

Em nosso amor de seleção, profundo

Que (ouço de longe o oráculo de Elêusis),


Se um dia eu fosse teu e fosses minha,

O nosso amor conceberia um mundo,

E do teu ventre nasceriam deuses...


"Argila" de Raul de Leôni


O meu comentário???


Não somos deuses...

E a glória esquece-se facilmente...

Somos criaturas raras,

porque apreciamos o prazer em conceber a arte...

Seja urbana,

marginal

ou outra.....

E correndo riscos para a expor...

Não somos nós os incoerentes...

Os que sujamos as mãos

e moldamos esse monte de argila...

Na nossa visão do Olimpo...

quinta-feira, outubro 08, 2009

VÁLIDO



No meu grande optimismo de inocente

Eu nunca soube porque foi... um dia

Ela me olhou indiferentemente

Perguntei-lhe porque era... Não sabia...


Desde então transformou-se de repente

A nossa intimidade correntia

Em saudações de simples cortesia

E a vida foi andando para a frente...


Nunca mais nos falamos... vai distante...

Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante

Em que seu mudo olhar no meu repousa,


E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,

Que ela tenta dizer-me qualquer coisa

Mas que é tarde demais para dizê-la...


Raúl de Leôni


O meu comentário???


E o que tens para me dizer?

Agora, neste momento.

Posso sempre responder-te.

O que diria na altura?

Não, não me perguntes isso.

Agora não vale a pena - não é válido.

O que te diria agora?

Que tenho pena de nem amigos sermos...

Continuas a ver a vida da mesma maneira

e a vida tem muitas portas,

muitas janelas.

Podemos encontrar tudo ou nada.

Mas temos alguma coisa..


segunda-feira, outubro 05, 2009

VIDA EM SUSPENSO

Prende-me a tua pele

ao perfume dos teus seios

e sinto que o mundo em mim se fechou...


Jardins de vida me trazes

odor de brilho aberto,

em voo de gaivota,

rente ao mar..


Esse fulvo encontro

me encanta à noite

se à janela

procuro o entrelaçado

da tua memória...


Ouço a noite

no céu estelar

cantar a nossa solidão:

o meu coração perdido

em teu olhar,

e o odor da tua pele

por mim espera

para que em ti se levante....


"Poeta Só" de Carlos Melo Santos in "Lavra de Amor"


O meu comentário???


Sei o que é...

Percorrer a memória e perceber onde estás...

Ou porque não estás...

Porque o teu odor continua forte,
se já partiste...

Ou continuamos a procurar nos outros o teu olhar...

Fica-se desiludido,

pendura-se o tempo algures...

Fica a vida em suspenso....

Inveja-se a gaivota...

Suspira-se pela noite...

Nada atenua,
contudo essa dor....