sexta-feira, julho 03, 2009

HESITAR

Surdo, Subterrâneo Rio
 
Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.
 
Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?
 
Eugénio de Andrade
 
O meu comentário???
Talvez não seja o nosso tempo de amar...
O rio sabe que margens deve desbravar para correr feliz..
Nós ainda hesitamos e o tempo passa, esquece-nos...
Ficamos presos a tentar descobrir a razão de amar...
Somos nós os surdos...
Perdemos realmente o amor e o rio continua livre....

terça-feira, junho 30, 2009

NOUTRO LOCAL

Contam que as sombras permanencem agora mais tempo sobre

as dunas e que a flor de laranjeira rebentou pelos caminhos,

encantando as viagens; que os morangos crescem, se os dedos

se aproximam, e que já se ouve, ao longe um rumor de asas

contrário a qualquer vento. Falam de um perfume estranho

que paira pela cidade e pelas palavras soltas que os rapazes

andaram a escrever pelos muros em segredo. E eu não sei nada


disto que me contam, nem me aquece a luz quente que,

como dizem, afaga de manhã os ombros de quem passa e vai

a outro lugar sentir o mesmo lume. E eu também já não sinto


a primavera: os dedos doem-me nos livros, sento-me de noite

à janela. Olho a lua que já não posso ter. Escondo-me

dos gatos. Dispo-me e vou dormir lá fora com as aves.


De Maria do Rosário Pedreira (Livro "A Casa e o Cheiro dos Livros")


O meu comentário???


O que dizer, enfim?

Não sei se estou com pena de mim...

Se estou a deixar que a dor me arraste...

Me cegue e eu esteja inume ao que me rodeia...

Se não sinto nada...

Se nem o livro consigo ler e o deixo ao abandono...

Ou nem passeie com o Sol...

Talvez a resposta esteja no voo das aves...

E eu possa refazer os meus passos noutro local..

Talvez a luz do Sol lá seja diferente...

E as recordações não sejam tão intensas...

Aqui...

morrerei nas sombras....