quinta-feira, junho 23, 2011

SEM SONHAR

Não o Sonho

Talvez sejas a breve

recordação de um sonho

de que alguém (talvez tu) acordou

(não o sonho, mas a recordação dele),

um sonho parado de que restam

apenas imagens desfeitas, pressentimentos.

Também eu não me lembro,

também eu estou preso nos meus sentidos

sem poder sair. Se pudesses ouvir,

aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,

animais acossados e perdidos

tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,

desamarraram-me de mim e agora

só me lembro pelo lado de fora.


Manuel António Pina, in "Atropelamento e Fuga"

O meu comentário???
E expulso de mim....
o que vejo e o que sinto???
 
Quem sou eu
e porque deixei de sonhar???
Não consigo olhar para dentro...
Para dentro de mim
e sei que o tempo parou algures....
 
Nesse dia em que deixei de te sonhar
e de te ouvir...
Deixei de me amar....
Não mergulho mais
na profundidade das coisas...
Da vida, de mim.....

quarta-feira, junho 22, 2011

ABENÇOAR

Agora é tarde para novo rumo
Dar ao sequioso espírito; outra via
Não terei de mostrar-lhe e à fantasia
Além desta em que peno e me consumo.

Aí, de sol nascente a sol a prumo,
Deste ao declínio e ao desmaiar do dia,
Tenho ido empós do ideal que me alumia,
A lidar com o que é vão, é sonho, é fumo.

Aí me hei de ficar até cansado
Cair, inda abençoando o doce e amigo
Instrumento em que canto e a alma me encerra;

Abençoando-o por sempre andar comigo
E bem ou mal, aos versos me haver dado
Um raio do esplendor de minha terra.



ALBERTO DE OLIVEIRA



(Poeta Brasileiro 1857-1937)

O meu comentário???
Não creio que seja tarde...
Nem para sonhar...
Nem para dar um novo rumo à vida...
Abrir a alma a novos prazeres...
Abençoando o tempo....
Por aquilo que nunca se teve tempo
para se olhar verdadeiramente..
A terra onde nascemos....

domingo, junho 19, 2011

ESTRANHAMENTE

Acreditei no mar

Percorri a umbria de um eclipse
que nas vagas não reflectia

Apaguei os olhos e sorri com uma lágrima
Ao abrir, fitei o azul
o azul do céu ,do mar e da lua

Ouvi então estremecerem as ondas
e a areia lacrimar.

Voltaram os raios lunares,
voltei ao luar da noite
húmida e fria
em que me movo
e te deito.

Minha gárgula de vida,
meu eterno mar.

Nuno Travanca

O meu comentário???
Em ti, encontro a minha paz...
Tudo o que escondi de mim próprio...
Liberta-se e encaixa-se na razão...
Da minha vida....
Posso chorar e sei que não te importas....

Porque estás a chorar comigo???
Porque te levo na alma
e te abraço sempre que me sinto sozinha?
Devolves-me esse abraço,
essa paz....

Nada mais dizes....
Porque, estranhamente,
eu já sei o que tenho a fazer.....