sexta-feira, abril 15, 2011

PÃO

vais ver
há-de romper uma noite
em que nem seremos capazes
de reconhecer a nossa própria voz
perguntando pelo nome
que fugiu da nossa boca

e ao estendermos as mãos
sobre a toalha da mesa do jantar
será apenas o cheiro do pão quente
a ficar  remotamente  entre os dedos
e uma jarra sem flores a tentar decifrar
a ausência de quem nos amava

e um choro a abandonar-nos naquele momento
em que o fim do verão nos explicava tudo.

de Alice Vieira

O meu comentário???
O "tudo" que passou a ser "nada"...
Um "nada" sem voz,
um "nada" ausente...
O fim do verão é o fim da distância...
Esse distância que não se explica....
Porque já se amou
e não se volta a amar assim...
Aquela será a última conversa...
Naquela mesa, com aquela toalha
que ficará esquecida,
na gaveta,
rejeitada,
culpada por ter ainda o cheiro do pão entranhado...

quinta-feira, abril 14, 2011

MAPA DO TESOURO

Uma declaração de amor não é acontecimento
de domínio público, uma baleia que vara na praia
sob o sol dos desastres e convoca multidões,
desalinhando hábitos quotidianos: uma declara-
ção de amor é um acto de grande intimidade que
ergue um véu transparente de onde brotam mel e
pássaros azuis. As palavras directas ou indirectas,
ditas ou escritas, suscitam a carícia única, irrepe-
tível, a leve percussão que desenha no silêncio a
imagem de quem se ama. E assim terá de se guardar.
Num lugar seguro onde os sismos não possam
encontrar o mapa de tesouro

de Egito Gonçalves

O meu comentário???
O meu lugar seguro é o meu coração...
Onde escrevo tudo...
As palavras que já te disse,
as que pensei dizer-te hoje...
E as que não vou repetir amanhã,
porque fiquei em silêncio...
Com o beijo carinhoso e suave
com que fechaste o meu dia...
A noite pode ser azul e doce....
Mas ignoramos tudo.....
Mesmo o mapa do tesouro....
Sabemos perfeitamente onde estamos...


segunda-feira, abril 11, 2011

PERFUME DA NOITE

As formas, as sombras, a luz que descobre a noite
e um pequeno passáro

e depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos numa plantação de sargaços

a tua figura era ao que me lembro
da cor do jardim.

"Z" de António Maria Lisboa

O meu comentário???
Porque insistes em falar em solidão???
Se a noite se cala e nada mais há a dizer...
Esquecer????
Não é fácil, pois não???
Com tantas memórias escritas
em coisas tão simples...
Como o perfume da noite
ou árvore que floresce....
A vida parece mesmo vazia....
Mas estará realmente????