quarta-feira, dezembro 30, 2009

AO LONGE

Ninguém consegue escrever o poema

captar a batida o ritmo a música inicial

cantar de dentro do epicentro

da palvra só lava

não mais que rio ardente

um fluxo de sangue

um batimento. Ou

vento, Apenas vento

no grande deserto de linguagem.

Miragem de miragem: breve

fria aragem

do fundo. Matemática do mundo

ainda só oiro e ferro e prata.

Ou pura magma. Talvez

a enigmática equação

de Deus.

Libélula inconcreta na cauda de um cometa

unicélula

na página do planeta

ainda só brancura de salgema.

E ninguém

sabe

quem

nem de onde nem porquê nem quando esse poema


"Primeira voz", poema de Manuel Alegre


O meu comentário???

Esse poema está escrito...

Na voz de alguém que domina as palavras..

Que as ama, que as conquista completamente..

Na arte, no desejo, na paixão de se fazer ouvir..

No Cosmo desconhecido....

A descobrir esses planetas, esses labirintos....

Esse amor infinito....

Que se embrulha no Vento e o segue....

E se faz ouvir...

Mesmo ao longe...

sexta-feira, dezembro 25, 2009

ÁS AVESSAS

No espaço do meu corpo



há um cheiro a maçã verde



e eu habituei-me



a esperar-te inteira



à beira do tempo



enquanto as esquinas



se dobram de espanto.






Tu és a certeza nesta viagem



pelo amanhecer tranquilo



em que a madrugada se despe



das palavras quietas que cheiram a ti.






Eu sou a incerteza



da partida que sabe a desejo






"Poema para ti" de António Sem






O meu comentário???


A vida às avessas...

As partidas e os desejos...

Mas saber que estás presente...

Que me estendes a mão...

Que confias em mim e não me deixas sozinha...

Esperar....o tempo não me derruba....

Pois sei que me desejas tanto como eu te quero...

Sentir em cada momento da minha vida..

Nos abraços do meu corpo...

Em que se intensifica esse desejo....

terça-feira, dezembro 22, 2009

FESTAS FELIZES

O "COM AMOR " deseja a todos os seus amigos/comentadores
Festas Felizes

Cá nos encontraremos para descobrir
novos poemas,
novos autores,
novos desafios
Um brinde e um muito obrigada a todos que me visitam...

quarta-feira, dezembro 16, 2009

REENCONTRO

Perco-me e encontro-me
em cada instante nomeado
quando as palavras se tornam mudas
invertendo o silêncio da luz
que me saciam de mistério
e teimam de me pertencer.

Eu me perco no silêncio
eu me encontro de esplendor

"Perco-me e Encontro-me" de António Sem


O meu comentário???
Num encontro contigo...
Nas madrugadas frias..
Nas noites quentes...
Sem palavras que te definam...
Porque sinto-te em mim...
Fico sem saber
a razão do meu desencontro...
Não quero desvendar
o mistério que é o prazer
de te amar inteiramente...

quinta-feira, dezembro 10, 2009

CARTAS

Porque me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando
Em qualquer língua se entende essa palavra
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonhos.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo nos consuma
sem a consumir
de Cecília Meireles
O meu comentário???
A morte,
a vida
Os sonhos,
as ilusões...
Os medos,
as verdades.
Retalhos,
momentos....
Partituras de músicas de encantar...
Porque a vida é a carta
que o destino escreve...
Nem sempre com as nossas palavras...
Mas no qual crescemos
e nos reconciliamos...
Com quê????
O nosso tempo,
os nossos segredos...

sexta-feira, dezembro 04, 2009

NAS MINHAS MÃOS

As minhas mãos afagam a doçura
e estendem-se gentis e tranquilas
pelas horas infindáveis
de muitas coisas passados
em anos vividos
abraçados num destino
que transporta consigo
pedaços de uma vida
As minhas mãos afagam a doçura
e trazem novos afagos de lua cheia
buscando ansiosas e aflitas
o consolo de uma pele macia
de tanto prazer abraçado
e de tanta delícia sentida
As Minhas Mãos, poema de António Sem
O meu comentário???
Olho para as minhas mãos...
E não sei o que têm para contar...
Estiveram tanto tempo sozinhas
que têm medo de falar...
Do prazer que é tocar noutras mãos..
Do calor que se espalha pelo corpo...
Do toque nos lábios de alguém
e sentir um beijo na palma...
Talvez estejam a sonhar...
Talvez seja uma fantasia...
Mas eu senti o beijo suave,
macio, quente
na palma das minhas mãos...
Que se fecham para o guardar.....

domingo, novembro 29, 2009

SEM RESPOSTA

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é o seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruaa te perco
Poema de Mário Cesariny
O meu comentário???
Fala-se novamente de amor...
Esse amor que parte à tua procura..
Não sei se te vai encontrar...
Nem tudo é real....
nem tudo o que sonhamos nos fala...
Fica guardado na linguagem dos sonhos..
Perdidos nessas ruas infinitas,
indecifráveis..
Posso já te ter encontrado....
Mas não ser quem tu queres....
E ficarmos sem respostas...

quinta-feira, novembro 26, 2009

MINHA

Fragmento 3


É tão natural

que eu te possua

é tão natural que tu me tenhas,

que eu não me compreendo

um tempo houvesse

em que eu não te possuísse

ou possa haver outro

em que eu não te tomaria....


Venhas como venhas

é tão natural que a vida

em nossos corpos se conflua,

que eu já não me consinto

que de mim tu te abstenhas

ou que o meu corpo te recuse

venhas como venhas...


E de ser tão natural

que eu me extasie

ao contemplar-te,

e de ser tão natural

que eu te possua,

em mim já não há como extasiar-me

tanto a minha forma

se integrou na forma tua....


Affonso Romano S'Antanna


O meu comentário???

Natural amar-te assim...

Sentir-te parte da minha pele

e adivinhar-te os segredos...

Natural sentir o desejo a desafiar-te...

Para que o sintas

na sua forma mais pura....

Natural concluir

que a tua vida é minha..

Sem palavras,

apenas deixar que o olhar fale...


terça-feira, novembro 24, 2009

LACRADA - BLOGAGEM COLECTIVA


Pensei que seria fácil.

Fácil escrever uma história de amor.

Mas assustei-me

com o silêncio repentino da noite.

Nem Vento, nem Chuva.

Nem os teus passos.


Não vou fazer a eterna pergunta.

"Onde estás?"

Já sei a resposta, mas dizer alto

que estou novamente sozinha,

não consigo.


Não agora.

Quando o silêncio ainda me pesa.

Um dia revelarei o que esta noite

me devolveu.


Peço apenas que chova.

E que a noite me perdoe

se insisto em falar.

Um monólogo longo

sobre o amor

que ainda reside no coração.


Talvez daqui nunca saia.

Nunca seja esquecido.

Eu nunca o queira esquecer.

Porque, mesmo que volte a amar,

sei que tudo será diferente.


Serei mais racional,

não me entregarei tão completa.


Não sei.

Sinto-me cansada.

De ouvir as queixas do mundo,

que são também as minhas queixas.


E, a janela,
essa janela que se abria

para um outro mundo,

esse mundo de doce ilusão,

está lacrada no silêncio desta noite.


Poema de minha autoria, protegido pelo IGAC - Cópias proibidas


A resposta do "Com Amor" ao desafio proposto pelo blog "Néctar de Flor" .


Nota:

Após este post,

o "Com Amor" continuará com a selecção de poemas (autores conhecidos ou não) com o meu comentário. Obrigada

quinta-feira, novembro 19, 2009

O QUE SURPREENDE

Não amo
melhor
nem pior
do que ninguém...
Do meu jeito amo
ora esquisito, ora fogoso
às vezes, aflito
ou ensandecido de gozo.
Já amei
até com nojo
Coisas fabulosas
acontecem-me no leito. Nem sempre
de mim dependem, confesso.
O corpo do outro
é que é sempre surpreendente.
"O amor e o outro" poema de Affonso Romano de Sant'Anna
O meu comentário???
Não é só o corpo que surpreende..
Os gestos,
os risos,
os olhos também...
A entrega,
o desejo,
a paixão
que despertam os sentidos..
Amamos como sentimos...
Como tocamos...
Como a pele fala com a pele....
Simplesmente acontece...
Amar...

domingo, novembro 15, 2009

DIA DE INVERNO

Ao frio suave, obscuro e sossegado,
e com que a noite, agora, se anuncia
depois de posto, ao longe, um sol dourado
que a uma rosada fímbria arrasta e esfia..
Da solidão dos homens apartado,
e entregue a tal silêncio, que devia
mais entender as sombras a meu lado
que a terra nua onde se atrasa o dia...
Recordo o amor distante que em mim vive,
sem tempo ou espaço, e apenas amarrado
à liberdade imensa que não tive,
E que não há, como o recordo agora
que a luz do dia já se não demora,
se apenas de si próprio é recordado?
"Glosa à chegado do Inverno" de Jorge de Sena
O meu comentário????
A solidão de um dia de Inverno..
O frio que se instala e que afasta a luz...
Essa luz que a Terra,
no seu próprio espaço e tempo,
entrega...
Ao silêncio de alguém...
Fechado nas memórias,
que também eu tenho
e me marcam...
Voltam agora à tona...
Voltam a magoar.....
E lamento que a luz do dia se afaste....
Fique apenas a chuva, o vento, o frio....
As longas e amargas horas de um Inverno,
carregado de sombras,
a quem não nos atrevemos dar um nome...

quinta-feira, novembro 12, 2009

EM PLENO

Á Minha Mulher
Eu estava morto e vivo agora.
Tu pegaste-me na mão..
Eu morri cegamente
Tu pegaste-me na mão.
Tu viste-me morrer
E encontraste-me a vida
Tu foste a minha vida
Quando eu morri
Tu és a minha vida
E assim eu vivo
Harold Pinter in "Várias vozes"
O meu comentário???
Vive-se em pleno...
No amor...
Na cumplicidade....
Sem escuridão...num óasis...
Em que tudo volta a ser mágico
quando se fala com a alma plena...
E como se compreende o silêncio....
E nada se pede quando se aconchega ao desejo

quarta-feira, novembro 11, 2009

DESAFIO


O "Com Amor" aceitou participar neste "blogagem colectiva" e escrever uma história de amor.
Será capaz??? Só no dia 24 de Novembro!!!!
Obrigada a Rebeca e Jota Cê...

quarta-feira, novembro 04, 2009

SEM CULPAS, COM VERDADE

Quando o amor acenar
siga-o ainda que por caminhos
ásperos e íngremes.
Debulha-o até deixá-lo nu.
Transforma-o,
livrando-o da sua palha.
Tritura-o
até torná-lo branco.
Amassa-o
até deixá-lo macio.,
e então submete ao fogo
para que se transforme em pão
para alimentar o corpo e o coração!
Khalil Gibran
O meu comentário???
Raro, intenso,
o amor provoca-nos...
Para além dos limites do nosso próprio corpo...
Conduz-nos a um labirinto de sensações,
em que o mel escorre pela nudez....
E, nos faz sentir gigantes.....
Numa entrega completa,
num desejo vivido....
Numa noite quente e romântica...
Numa noite fria de chuva e desespero...
Sem culpas....
com verdades

sábado, outubro 31, 2009

NADA

FIM
O fim.
Tudo tem fim, nada é eterno.
O início, tal como o fim.
O nada.
Onde tudo começa.
Onde tudo acaba.
No fim não se pensa.
Fecha-se s olhos e acontece.
Mesmo sem querermos.
Ele vem, rápido e frio.
Depois começa-se tudo de novo.
Do nada, para acabar tudo onde se começou.
Sem nada!
João Costa Ferreira (Livro "II Antologia de Poetas Lusófonos")
O meu comentário???
Simples de escrever...
Nada é simples de escrever...
Porque a palavra pinta-se, disfarça-se...
Encanta-nos de maneiras diferentes....
Posso pensar que a estou a dominar...
e no final, ter escrito o que ela quis que eu escrevesse..
Não estou a escrever sobre o nada,
sobre o fim...
Escrevo sempre sobre o começo,
o recomeço...
Nas diversas vertentes da palavra...

terça-feira, outubro 27, 2009

TEMER

A HORA MAIS EXACTA

Imagens
que voltavam devagar,
se encostavam a ela sem pudor.
E no silêncio, a esfinge impenetrável,
sabendo-lhe de cor o coração:
desistente dos barcos,
depondo pelo chão de outros palácios
as armas mais preciosas.
“Não posso”, acrescentara
sentindo aproximar-se a hora
exacta.

de Ana Luisa Amaral

O meu comentário???
A hora exacta para quê???
Desistir da vida,
por não se ter encontrado o tal palácio...
Aquele sobre o qual se lê
nas histórias de crianças...
Os reinos de fantasias que
ficam sempre escondidos no coração..
Talvez porque a realidade é exactamente o oposto...
Não há horas exactas...
Há apenas horas....
As felizes
quando as conseguimos partilhar...
As amargas quando desabamos
e somos confrontadas com uma solidão que tememos...

sábado, outubro 24, 2009

ESCRITA NO OLHAR

Poema
E que o mar se levante em pranto...
E que o sol fique pálido e branco...
Que o vento estremeça de espanto
Vou querer-te em meus braços enquanto
Os teus braços me sirvam de manto...
de Piedade Barbedo (Livro "II Antologia de Poetas Lusófonos)
O meu comentário???
Os meus braços...
parecem-me vazios, às vezes..
Escondo as lágrimas nos cantos...
Com a tua ausência escrita no olhar...
Não tenho medo do mar...
Sinto-me em paz quando o vejo....
Se juntar o meu pranto ao dele....
Se quem me abraça é o vento...
Sinto um estranho conforto
e olho em frente...

quinta-feira, outubro 22, 2009

AMAR E MAR

Beijo pouco, falo menos ainda.

Mas invento palavras

Que traduzem a ternura mais funda

E mais cotidiana.

Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.

Intransitivo:

Teadoro, Teodora.


Neologismo de Manuel Bandeira


O meu comentário???

Não posso inventar um verbo com o meu nome...

Ou talvez possa,

se trocar as letras...

Traduzir o meu nome no verbo "Amar"...

Simplesmente "Mar" ou "rara"...

Porque falar, eu falo pouco...

Beijar....

beijo-te muito.....

Com ternura.

Com amor.

segunda-feira, outubro 19, 2009

ESCUTAR

Eu não voltarei. E a noite
morna, serena, calada,
adormecerá tudo, sob
sua lua solitária.
Meu corpo estará ausente,
e pela janela alta
entrará a brisa fresca
a perguntar pela minha alma...
Ignoro se alguém me aguarda
de ausência tão prolongada,
ou beija a minha lembrança
entre carícias e lágrimas.
Mas haverá estrelas, flores
e suspiros e esperanças,
e amor nas alamedas,
sob a sombra das ramagens.
E tocará esse piano,
como nesta noite plácida,
não havendo quem o escute,
a pensar, nesta varanda...
Juan Ramón Jiménez
O meu comentário???
Escuta-o o poeta...
E os versos tranquilos...
Sobre a solidão da alma...
Algures no infinito..
Porque a brisa é fresca, é vaidosa.
Procurará sempre outros beijos,
outras esperanças,
outros amores...
Porque a vida assim lho dita....

quinta-feira, outubro 15, 2009

PRÓXIMA

Desencanto

Eu faço versos como quem chora

De desalento... de desencanto...

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...

Tristeza esparsa... remorso vão...

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

de Manuel Bandeira
O meu comentário???
Ou para se libertar dela...
Esquecer-se da morte...
Das frases habituais...
Num poema a coragem de gritar....
Com palavras amargas
que magoam a boca e coração...
A dor....
que se julga impossível,
mas está tão próxima..
e é fatal na revolta...

sábado, outubro 10, 2009

VISÃO DE OLIMPO

Nascemos um para o outro, dessa argila

De que são feitas as criaturas raras;

Tens legendas pagãs nas carnes claras

E eu tenho alma de fauno na pupila..


Às belezas heróicas te comparas

E em mim a luz olímpica cintila

Gritam em nós todas as nobres taras

Daquela Grécia esplêndida e tranquila...


É tanta a glória que nos encaminha

Em nosso amor de seleção, profundo

Que (ouço de longe o oráculo de Elêusis),


Se um dia eu fosse teu e fosses minha,

O nosso amor conceberia um mundo,

E do teu ventre nasceriam deuses...


"Argila" de Raul de Leôni


O meu comentário???


Não somos deuses...

E a glória esquece-se facilmente...

Somos criaturas raras,

porque apreciamos o prazer em conceber a arte...

Seja urbana,

marginal

ou outra.....

E correndo riscos para a expor...

Não somos nós os incoerentes...

Os que sujamos as mãos

e moldamos esse monte de argila...

Na nossa visão do Olimpo...

quinta-feira, outubro 08, 2009

VÁLIDO



No meu grande optimismo de inocente

Eu nunca soube porque foi... um dia

Ela me olhou indiferentemente

Perguntei-lhe porque era... Não sabia...


Desde então transformou-se de repente

A nossa intimidade correntia

Em saudações de simples cortesia

E a vida foi andando para a frente...


Nunca mais nos falamos... vai distante...

Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante

Em que seu mudo olhar no meu repousa,


E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,

Que ela tenta dizer-me qualquer coisa

Mas que é tarde demais para dizê-la...


Raúl de Leôni


O meu comentário???


E o que tens para me dizer?

Agora, neste momento.

Posso sempre responder-te.

O que diria na altura?

Não, não me perguntes isso.

Agora não vale a pena - não é válido.

O que te diria agora?

Que tenho pena de nem amigos sermos...

Continuas a ver a vida da mesma maneira

e a vida tem muitas portas,

muitas janelas.

Podemos encontrar tudo ou nada.

Mas temos alguma coisa..


segunda-feira, outubro 05, 2009

VIDA EM SUSPENSO

Prende-me a tua pele

ao perfume dos teus seios

e sinto que o mundo em mim se fechou...


Jardins de vida me trazes

odor de brilho aberto,

em voo de gaivota,

rente ao mar..


Esse fulvo encontro

me encanta à noite

se à janela

procuro o entrelaçado

da tua memória...


Ouço a noite

no céu estelar

cantar a nossa solidão:

o meu coração perdido

em teu olhar,

e o odor da tua pele

por mim espera

para que em ti se levante....


"Poeta Só" de Carlos Melo Santos in "Lavra de Amor"


O meu comentário???


Sei o que é...

Percorrer a memória e perceber onde estás...

Ou porque não estás...

Porque o teu odor continua forte,
se já partiste...

Ou continuamos a procurar nos outros o teu olhar...

Fica-se desiludido,

pendura-se o tempo algures...

Fica a vida em suspenso....

Inveja-se a gaivota...

Suspira-se pela noite...

Nada atenua,
contudo essa dor....

quarta-feira, setembro 30, 2009

SER OUTONO

Não sei de mim

se daquilo que parece ser

me perdi...


Deixei que a vida me vivesse e,

perdendo-me na vida,

a vida perdeu-se...


E menti muito

para ser melhor


de Fátima Andersen


O meu comentário???


O meu retrato???

Ás vezes,

penso que sim e revolto-me..

Quero reescrever a minha vida...

Mas não posso...

Fui o retrato inacabado, abandonado...

Sem saber que tinha que ser eu a acabar..

A pintar a nau nas minhas cores...

Não me importar com a troça dos outros...

Porque gosto de rosa...

Adoro o aroma quente do dourado e do castanho..

Sou o Outono,

vivo no Outono....

E gosto...


sexta-feira, setembro 25, 2009

SER IGUALMENTE FELIZ

Resgate


Não sou isto nem aquilo

É o meu modo de viver


É, às vezes, tão tranquilo


Que nem chega a dar prazer...


Todavia, onde apareço,


Logo a paz desaparece


E a guerra que não mereço


Dá princípio à minha prece.


És alegre? Vês-me triste?


Por que não te vais embora?


Quem é triste é porque é triste.


E quem chora é porque chora.


Tenho tudo o que não tens


Tenho a névoa por remate.


Sou da raça desses cães


Em que toda a gente bate.


Só a idade com o tempo


Há-de vir tornar-me forte.


A uns, basta-lhes o vento...


Aos Poetas, basta a morte.


Pedro Homem de Mello, in "Eu Hei-de Voltar um Dia"


O meu comentário???


A pergunta que continuo a fazer...

Ser quem sou.....

dentro das fronteiras que estabeleci...

O que tenho...

pode ser realmente uma migalha...

Fui eu, no entanto, quem a conquistou...

Se te sentes feliz navegando num oceano

e eu tenho medo de o atravessar...

Deixa....
Posso ver o Mundo a girar
doutra maneira...
Ser igualmente feliz...

quinta-feira, setembro 24, 2009

AS CORES

A poesia não é voz - é uma inflexão.

Dizer, diz tudo a prosa. No verso


nada se acrescenta a nada, somente


um jeito impalpável dá figura


ao sonho de cada um, expectativa


das formas por achar. No verso nasce



à palavra uma verdade que não acha


entre os escombros da prosa o seu caminho.


E aos homens um sentido que não há


nos gestos nem nas coisas:
vôo sem pássaro dentro


Aurora - de Adolfo Casais Monteiro


O meu comentário???


Eu, escrever um poema?


Duvidei da ideia


- ri-me mesmo.


Mas tentei...


Aprendi, realmente a voar.


Nas palavras que sinto...


Transformando a minha ilusão

numa realidade,

sonhada,

que sempre tive medo de agarrar...

Na aurora,

nas minhas palavras..

nos meus poemas

falo sempre das cores....

segunda-feira, setembro 21, 2009

ESCUTAR DESEJOS

Quanto tempo tem o tempo para me dar?




Um instante?




A eternidade?




Apenas a saudade?








Quanto tempo é um instante?




Quanto dura a eternidade?




Quando tempo é saudade?








Quanto tempo é bastante?




Quanto tempo soube amar?




Quanto tempo o tempo tem?




Quanto tempo para me dar?








de Filipe Campos Melo - "Quanto tempo o tempo tem"




do Livro "Na Utopia, Sou Profeta"






O meu comentário???




O tempo?

São memórias felizes,

mesmo que embrulhadas na saudade.

Um tempo,

sem segredos.

Á escuta apenas de desejos.

E esses (os desejos),

sim,

são eternos..



quinta-feira, setembro 17, 2009

AMANTE FAVORITO

O tempo que me resta


Penso em ti no tempo que me resta.
E no restante, penso em ti.
Para fugir ao vento,
De nós, fugi.

Sinto teus sons,
Traços desenhados em meu corpo.

Não és lembrança em bau fechado.
És eco do meu sonho,
Reminiscência do desejo.
Aroma.


de Filipe Campos Melo (Livro "Na utopia, sou profeta")

O meu comentário???

Quanto tempo me resta?
Isso é importante?
Não, hoje o tempo não conta.
Nem quero saber se estou a fugir ao Vento.
Ou se tu és apenas uma lembrança.
Hoje, o tempo é para mim..
Diálogo sobre o que eu desejo.
O que me esqueci de dizer.
Porque tudo o que queria,
era ouvir-te, ouvir-nos
e se nem o Vento se lembra de mim,
o que me resta mesmo?

terça-feira, setembro 15, 2009

ANTES DE ADORMECER

Guio-me
Por teus olhos abertos
Sobre a trêmula e ardente
Superfície das lágrimas.
De tantas coisas

É feito o Mundo!
Entre escombros, espigas, dias e noites
Procuram os homens ansiosamente

O ramo de louro.
Quando, fatigados,
Próximos estão do limiar, do pórtico,
Os homens deixam, à entrada,
Suas mais queridas coisas.
E ei-los que apenas se incomodam,
E se interrogam,
Sobre o modo mais simples
De se despir e adormecer.


de Raúl de Carvalho





O meu comentário???




Sinto-te a adormecer contra mim..


Como se eu tivesse a resposta


e pudesse derrotar o Mundo.


Obriga-me a deixar-te....


Os meus sonhos e a esconder o medo.


Sim,


vou lembrar-me do teu olhar,


do teu sorriso..


Sim,


vou deixar que me guie...


A última viagem antes de adormecer...


Pelo teu amor...


quinta-feira, setembro 10, 2009

BEIJO NUM MINUTO

Um beijo


Foste o beijo melhor da minha vida,

ou talvez o pior...Glória e tormento,


contigo à luz subi do firmamento,


contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:

queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,

e do teu gosto amargo me alimento,

e rolo-te na boca malferida.


Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,


batismo e extrema-unção, naquele instante


por que, feliz, eu não morri contigo?


Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,


beijo divino! e anseio delirante,


na perpétua saudade de um minuto....


de Olavo Bilac




O meu comentário???


Um minuto....

um beijo profundo..

O explorar,


a entrega...


Total

ao prazer de sentir o corpo relaxar contra o outro...


A doçura do toque da língua nos lábios...


Sentir que se abrem,

como deslizam sobre os nossos...

Mergulhando mais fundo.....

num suspiro ...




segunda-feira, setembro 07, 2009

DESFECHO

TRÊS OU QUATRO SÍLABAS


Neste país

onde se morre de coração inacabado

deixarei apenas três ou quatro sílabas

de cal viva junto à água.


É só o que me resta

e o bosque inocente do teu peito

meu tresloucado e doce e frágil

pássaro das areias apagadas.


Que estranho ofício o meu

procurar rente ao chão

uma folha entre a poeira e o sono

húmida ainda do primeiro sol.


Eugénio de Andrade
O meu comentário????
O amor....
Os vários tipos de amor...
Aos tropeções
no meio das guerras e outro tipo de violências...
O amor...
Nos olhares que ainda esperam...
Pela paz, pelo brilho do sol...
Pela amizade que se sopra aos ouvidos..
O nunca desistir...
Ou o desistir...
Quando tudo o que resta,
é o vazio...
O desfecho mais cruel...