quinta-feira, dezembro 01, 2011

SILÊNCIO

Os Justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.

O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.


Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral


7 comentários:

Paixão Lima disse...

Não sabemos o objectivo da Vida. O porquê e o para quê não se conhecem. Mas viver é preciso ! Se a Vida, tal como é, não nos agrada, então inventemos outra...
Temos sensibilidade e poder criativo para o fazer. Viver no faz de conta...pairar nas nuvens... amar o longe e a quimera...e usufruir da beleza extraordinária onde nos é permitido viver. E como a Felicidade não é um valor objectivo mas uma criação do seu criador, vamos ser felizes se, para tanto, nos sobrar o engenho e a arte (como diria o Poeta).
Mudando o tema da conversa, pois duma conversa se trata, vou oferecer-lhe um presente insignificante, mas de valor estimativo. Gosto de gostar de quem gosta que eu goste. E porque tenho admiração por si e sou seu Amigo, vou dedicar-lhe uma pseudo-poesia. Como sempre tive a mania de voar (deveria ter nascido pardal), o tema do poema ou lá do que é, só poderia ser uma ave. É curioso que ambicionando tanto voar tenha um medo terrível de andar de avião. Mas tem sentido porque, de facto, andar de avião não é voar, é andar à boleia. Que tenha um bom dia !

TOUTINEGRA

Ó Toutinegra ! Eu quero voar contigo !
Subir ao Céu para além das nuvens,
Ver o azul do firmamento
E pressentir o Sol mais perto ;
Acalentar-nos o corpo e o espírito,
Navegar ao sabor das correntes de ar
Ascendentes e descendentes,
Como balão que sobe e desce
Sem destino no seu voar incerto,
De ébrio inconsciente.

Ó Toutinegra ! Minha ave negra e rubra,
Que cantas porque gostas de cantar
Sem teres que espantar os fantasmas
Porque não há fantasmas em teu redor.

Como amo a tua liberdade !
Como invejo a tua determinação
De pretenderes viver apenas por viver,
Mas viver plenamente
Sem padecimentos nem constrangimentos.

Ó Toutinegra ! Bela ave madrugadora !
Do alto do teu caminhar,
Quando desvias o olhar para a Terra
Que vês tu ?! Minha inocente criatura ...
Minha princesa do ar e do espaço ...
Nada vês ! Porque nada podes ver,
No teu incompreensível compreender.
E que sorte a tua em teres olhos
Só para o que é preciso,
Porque assim não vês a neblina
Como sudário de dor e morte
Que cobre o Mundo a teus pés,
O pus e o sangue que correm livremente
Como lava de um vulcão violento e inaudito,
Que tudo destroi e tudo esmaga,
Como cavalo à solta sem freio nem lei.

Como gostaria de ser como tu ...
Viver o simples e o precário,
E aceitar a dádiva da Natureza
Sem questionar nem exigir,
Sem sentir no peito
O sobressalto do temor
Dos que vivem sem Graça e sem Amor.

Leva-me contigo ! Ó Toutinegra !...

Anita de Castro disse...

Do silêncio nasce a paz que cultivamos

Agostinho Barros disse...

adoreiii, a seguir, segues-me tambem?

Daniel Costa disse...

Marta

Sempre a clarividência e a razão do grande escritor, Jorge Luis Borges.
Beijos

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

"Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo."
O mundo está, como costumamos dizer um verdadeiro caos, onde os afetos são esquecidos, onde cada um tenta correr mais do que o outro em busca do lucro, do ter cada vez mais. Felizmente há um grande número de pessoas por esse mundo afora que se quer desconhecido mas cuja obra é fundamental para que ainda tenhamos esperança no ser humano. São essas pessoas que não querem ser " Pessoas mais ou menos" que estão a salvar o mundo. Esse " "Mais ou menos" é uma mensagem lindíssima de Chico Xavier e que eu, se me permite vou deixar aqui.

"A gente pode morar numa casa mais ou menos,
numa rua mais ou menos,
numa cidade mais ou menos
e até ter um governo mais ou menos.
A gente pode dormir numa cama mais ou menos,
comer um feijão mais ou menos,
ter um transporte mais ou menos e
até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro.
A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais
ou menos, tudo bem!
Mas o que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum:
É amar mais ou menos,
é sonhar mais ou menos,
é ser amigo mais ou menos,
é namorar mais ou menos,
é ter fé mais ou menos,
é acreditar mais ou menos.
Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou
menos.

Obrigada Marta pela partilha desta bela mensagem! Gostei muito. Um beijinho e fica bem! Até breve
Emília

Evanir disse...

Todo amor verte de Deus. No fundo, todo consolo que você recebe deriva das mãos de Deus.
Nada lhe chega de forma diferente, mesmo quando vem pelos outros. Na ajuda, o ajudador é o mais beneficiado.
A energia amorosa, que expande, passa primeiro por ele antes de atingir o objetivo.
Por isso, quando você ajudar alguém, não se orgulhe. Lembre-se de que Deus é que lhe dá essa oportunidade.
Agradeça a Ele por isto. Faça o auxiliado saber que tudo o que recebe lhe veio de Deus. "...
Hoje pesso que leia minha postagem por favor.
Tem um mimo de Natal na lateral do blog caso você goste foi feito com enorme carinho para você.
Uma linda noite beijos no coração.
Evanir

Sofá Amarelo disse...

Ninguém sabe de ninguém, ninguém sabe que outro ninguém deambula noutras paragens... e no entanto, cada um constrói um pedacinho da humanidade!