terça-feira, agosto 02, 2011

CINZAS

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta -me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer


MIA COUTO

Raiz de Orvalho e outros poemas

O meu comentário???
Não quero perguntar nada....
Não há respostas
ao que é indecifrável...
Ao que nos percorre as veias.....
Ao que não o sabemos
dizer em palavras....
Essas palavras
reduzidas a cinzas
e esquecidas
no nevoeiro cerrado
que sobe do mar.....










6 comentários:

Álvaro Lins disse...

Olá Marta:
Por vezes o silêncio diz tudo.
Há perguntas que não se fazem, porque já sabemos as respostas.
Excelente poema e belíssimo comentário.
bjo

Graça Pires disse...

Este poema de Mia Couto é um dos meus favoritos.
Fazes bem em não querer saber nada. As palavras às vezes são tão inúteis...
Um beijo.

Paixão Lima disse...

Mas porque temos perguntas
E não obtemos respostas
Que não constituam
Perguntas e mais perguntas?!

Nada é visível, tudo é oculto...

Lídia Borges disse...

O dialogismo entre textos a resultar muito bem. Mia Couto tem uma poesia que toca as raízes do tempo na procura do ser, da sua essência e de uma resposta para o "desconcerto do mundo".

Um beijo

Machado de Carlos disse...

Marta

A união de poemas profundos. Lembra-me de um soneto que eu houvera escrito há anos e que tomo a liberdade de colocá-lo aqui;


Nada

Meu ser era nada. Encheste meu coração!...
Como nada me deixaste assim, sem fala;
Examinei o nada, em vão procurei ala por ala;
Do nada e em tudo, não achei explicação.

Foste tudo. Hoje és nada. Por que cantá-la?
Neste mundo de nada, construí tua mansão
No endereço do nada, outra dimensão;
Nadei nas águas do nada, a voz se cala...

Tentei achar no nada, tua voz, teu tudo...
O nada fez sofrer, dele faço meu estudo;
Que valor tem o nada, se nada é perdê-la?

Busquei no nada a essência da matéria,
O nada gélido e a existência funérea...
Nada!... Nada!... Nada!... O nada é minha estrela!...

Machado de Carlos

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga.

A cada pergunta,
a resposta
já existe no olhar.
As vezes indecifrável...
As vezes difícil...

Para ti,
a calma dos
sentimentos bons...