terça-feira, junho 07, 2011

AFECTO

A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado
A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.

Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.

José Jorge Letria,
in "A Metade Iluminada e Outros Poemas"

O meu comentário???
Pode ser o brilho do olhar...
Um sorriso triste ou simplesmente um abraço...
Afecto,
que se manifesta de tantas maneiras...
Como o mar ao enroscar-se em nós
e devolver-nos a capacidade de voltarmos a sonhar....
Ah, saudade das minhas gargalhadas felizes....
Agora, choro tanto por dentro,
que não sei se voltarei a rir....



4 comentários:

| A.Luiz.D | disse...

voltar a sentir, a rir.
perdoar, reviver prazeres,
conviver com o própio sorriso
é alimentar a certeza de uma expressão tão perfeita, com cantos
animados no ritmo da velha pureza..

bjs

Álvaro Lins disse...

Só podemos "prever" o passado, Marta. O futuro depende de nós!:)
Dizer que gostei! Já sabes.
Abraço

Paixão Lima disse...

«Agora, choro tanto por dentro, que não sei se voltarei a rir...». Julga não saber, mas sabe que vai voltar a rir. Nada se eterniza no tempo. A seguir ao desgosto vem o gosto.

Daniel Costa disse...

Marta

Dois poemas diferentes, com o mesmo sentido, embora o José Jorge Letria, seja tavez mais esfingico.
Fcto é que também gostei do teu.
Beijos