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BELEZA E FOGO

Não se pode cortar o fogo com uma faca  (provérbio grego) até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza Fonte: "A faca não corta o fogo" Herberto Helder (Pg 133) Enviado por JPD do blog "O Gato e o Guizo" O meu comentário??? Não sei se falas de ciúme ou de ódio.. Ambos ardem numa loucura fria... Um fogo intenso que corrompe a beleza dos sentimentos... Em que se pergunta por Deus e a culpa é só nossa... Porque ficamos à superfície das coisas.. Ouvimos e não ouvimos... Sem entendermos verdadeiramente... O que deixamos escapar.... DESAFIO: Com as palavras " beleza " e/ou " fogo" gostava que me enviassem poemas, vossos e/ou dos vossos poetas favoritas para eu comentar....

FRÁGIL E DOCE

pernoitas em mim e se por acaso te toca a memória...amas ou finges morrer pressinto o aroma luminoso dos fogos escuto o rumor da terra molhada a fala queimada das estrelas é noite ainda o corpo ausente instala-se vagarosamente envelheço com a nómada solidão das aves já não possuo a brancura oculta das palavras e nenhum lume irrompe para beberes "Pernoitas em mim" de Al Berto in "Rumor dos Fogos" O meu comentário??? Mas continuas a sentir e a apontar-me as estrelas... Tudo fica mais frágil e mais doce... Há palavras que não precisam de ser ditas.. E mesmo a solidão.... não é uma solidão profunda.... Mesmo que só haja memórias para a percorrer... Se continuo a existir em ti.... nunca morrerei..... Mesmo que te abandone fisicamente.... E as horas sejam vagarosas.......

TAL COMO É

Não me deixem tranquilo não me guardem sossego eu quero a ânsia da onda o eterno rebentar da espuma As horas são-me escassas: dai-me o tempo ainda que não o mereça que eu quero ter outra vez idades que nunca tive para ser sempre eu e a vida nesta dança desencontrada como se de corpos tivéssemos trocado para morrer vivendo de Mia Couto O meu comentário??? Mas o que é viver e morrer?? Viver é seguir o ritmo da onda... Sentir o ritmo, dançar ao ar livre... Rir com as horas... Nunca serão escassas... Podem ser doridas e pesadas. Podem ser um presente, um bombom, quando tranquilas... Isso, sim, é saber viver a beleza do bater das ondas... A vida e aceitar o fim tal como ele é...

FELIZ

dois amantes, o mundo cada um no seu reino, beijam-se na praia quando as ondas batem as areias o mar é o meu navio, hoje naufrago feliz sabes quem sou, as dunas que se levantam com o vento são os sonhos do amor que dormita em sossego nas praias a terra és tu o mar sou eu "Dois Amantes, o Mundo" de Jorge Reis-Sá  in "A Palavra no Cimo das Águas" O meu comentário??? Não durmo.. Só sonho e estou em paz... Num sossego que nada perturba... Nem o mar, nem o vento.. Sei quem tu és... Escrevo tantas vezes o teu nome... Vejo-o em qualquer lugar... Mesmo nas dunas onde afundo os pés... Brincando com a areia escaldante, oferecendo-te os lábios para mais um beijo... E, sim, estou feliz....

ONDA DO TEMPO, ONDA DO MAR

De que céu caído, oh insólito, imóvel solitário na onda do tempo? És a duração, o tempo que amadurece num instante diáfano; flecha no ar, branco embelezado e espaço já sem memória de flecha. Dia feito de tempo e de vazio: desabitas-me, apagas o meu nome e o que sou, enchendo-me de ti: luz, nada. E flutuo, já sem mim, pura existência "Dia" de Octavio Paz in "Liberdade sob palavra" Tradução de Luis Piganalli O meu comentário??? A onda do tempo é como a onda do mar. É única - por vezes, cruel... Desconhece o que é a luz ou finge que não a vê... Porque só existe e naquele momento, não há nada... Passado, presente ou futuro... Paisões, desejos, amor... Nada... Nem mesmo os meus gritos de revolta  o impedem... De arrasar as memórias da verdadeira razão de existir... O tempo é como o mar.... Talvez o mar não seja tão impiedoso  como o tempo.... Perdoem-me se disser que não sei.... Não sei mesmo....

VERDADEIRA

Se é real a luz branca desta lâmpada, real a mão que escreve, são reais os olhos que olham o escrito? Uma palavra à outra o que digo desvanece-se. Sei que estou vivo entre dois parênteses. Certeza de Octavio Paz in "Dias Hábeis" Tradução de Luis Pignatelli O meu comentário??? Sem contar as horas, ou os anos. Ou entristecer porque ninguém lê o que escrevemos. A chave para a realidade é a luz. Interpretar, descrever a luz. Essa luz segura, tranquila. Em que o medo não entra, em que nada pode desvanecer-se, porque a luz é bem real.

ALMA LIVRE

Quero dos deuses só que não me lembrem Serei livre - sem dita nem desdita, Como o vento que é a vida Do ar que não é nada. O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos Cada um com seu modo, nos oprimem. A quem os deuses concedem, Nada, tem liberdade "Quero dos deuses só que não me lembrem" de Ricardo Reis, in "Odes" O meu comentário??? Não sei... Porque não sei se os deuses,  alguma vez, me concederam alguma coisa... Estranho pensar nisso agora... Quando o meu reflexo no espelho  é finalmente claro... Não que não tenha dúvidas, porque as tenho... Mas porque posso ver como os meus olhos estão brilhantes... E isso significa que a alma está livre....